Livro Breves Respostas Para Grandes Questões Reprodução Capítulo 10

Livro “Breves Respostas Para Grandes Questões”
Stephen Hawking – Editora Intrínseca
2018 – 256 páginas.

Este é o último livro desse extraordinário físico teórico. Ele revisava essa edição quando faleceu, em 14 de março de 2018. Auxiliados por seus colegas de profissão os familiares terminaram a revisão e providenciaram a publicação.

MOTIVO PARA REPRODUÇÃO DO CAPÍTULO 10

Nos últimos tempos fortes indignações sequenciais me induziram retornar à releitura do capítulo 10, que encerra esse excelente livro, por dele frequentemente me recordar à cada notícia desvelando e denunciando atos e ocorrências criminosas promovidas pelos atuais incompetentes, desastrados, malignos e corruptos dirigentes da nossa nação, chefiados, orientados e estimulados pelo tresloucado maior que os lidera em perniciosa súcia, neste caso principalmente quando seguidamente desprestigiam o indiscutível alto valor, competência e necessidades dos nossos professores, especialistas, mestres, doutores, educadores e cientistas para, intencional e escancaradamente, desorganizar, desestimular, dificultar, desestruturar e destruir nossas importantes instituições voltadas às educação, pesquisa científica, cultura e outros ensinos de iguais e vitais importâncias, com maior gravidade nos atos e acontecimentos que atingem e prejudicam nossas crianças e jovens, futuros dirigentes da nação.

Mediante essas frequentes indignações, não resisti ao ímpeto de reproduzir e divulgar a íntegra do último capítulo do livro citado, em razão das importantes abordagens do autor, com comentários enaltecendo os professores, a educação, o ensino, a leitura, o estímulo à curiosidade, à mentalidade estudantil aberta aos desafios, à pesquisa científica e muito mais!

Todo conteúdo desse livro é ótimo e importante, imperdível para aficionados em Física Quântica e Astrofísica. Entretanto, para esta minha abordagem tem maior significado o seu capítulo final, “10”, que está a seguir reproduzido na íntegra. São meus os destaques em grifos, negritos e na cor vermelha, evidenciando os trechos que considerei mais incisivos para as áreas citadas.

CAPÍTULO 10

COMO MOLDAREMOS O FUTURO?

HÁ UM SÉCULO, Albert Einstein revolucionou nossa compreensão do espaço, tempo, energia e matéria. Continuamos a nos deparar com extraordinárias confirmações de suas predições, como as ondas gravitacionais observadas em 2016 pelo experimento do LIGO. Quando penso em engenhosidade, Einstein me vem à mente. De onde vinham suas ideias tão inovadoras? Uma mescla de qualidades, talvez: intuição, originalidade, talento. Einstein tinha a capacidade de enxergar além da superfície para revelar a estrutura subjacente. Ele não se deixava esmorecer pelo senso comum, a ideia de que as coisas devem ser como parecem. Ele teve a coragem de perseguir ideias que pareciam absurdas para os outros. E isso o liberou para ser inventivo, um gênio para sua época e todas as demais.

Um elemento crucial para Einstein era a imaginação. Muitas descobertas suas vieram de sua capacidade de reimaginar o universo mediante experimentos mentais. Com dezesseis anos, quando devaneou que passeava em um feixe de luz, ele percebeu que de tal perspectiva a luz teria a aparência de uma onda paralisada. Essa imagem acabaria levando à teoria da relatividade especial.

Cem anos depois, os físicos sabem bem mais sobre o universo do que Einstein. Hoje em dia temos ferramentas melhores para fazer descobertas, como aceleradores de partículas, supercomputadores, telescópios espaciais e experimentos, como aqueles sobre ondas gravitacionais no laboratório do LIGO. No entanto, a imaginação continua sendo nosso atributo mais poderoso. Com ela, podemos vagar por qualquer lugar do espaço e do tempo. Podemos presenciar os fenômenos mais exóticos da natureza enquanto dirigimos um carro, cochilamos na cama ou fingimos escutar um chato na festa.

Durante a infância, eu era apaixonado pelo funcionamento das coisas. Naquela época, era mais simples desmontar um objeto para ver seu mecanismo. Nem sempre eu conseguia remontar as peças dos brinquedos que abria, mas acho que aprendi mais do que uma criança aprenderia hoje se tentasse fazer o mesmo com um smartphone.

Meu trabalho ainda é descobrir como as coisas funcionam, embora em outra escala. Não destruo mais trenzinhos. Em vez disso, tento entender o funcionamento do universo usando as leis da física. Se sabemos como algo funciona, podemos controlá-lo. Soa tão simples quando falo dessa maneira. Mas é um trabalho cativante e complexo que me fascinou e empolgou durante toda minha vida adulta. Trabalhei com alguns dos maiores cientistas do mundo. Tive a sorte de viver no que tem sido um período glorioso para meu campo de estudo, a cosmologia, que investiga as origens do universo.

A mente humana é uma coisa incrível. Ela pode conceber a magnificência do firmamento e as complexidades dos componentes básicos da matéria. Porém, toda mente necessita de uma fagulha para atingir seu pleno potencial. A centelha da curiosidade e da dúvida. 

Muitas vezes essa centelha vem de um professor. Deixe que me explique. Não fui um aluno exemplar, demorei para aprender a ler e minha caligrafia era ruim. Mas quando estava com quatorze anos, meu professor em St. Albans, Dikran Tahta, mostrou-me como aproveitar minha energia e me encorajou a pensar criativamente em termos matemáticos. Ele abriu meus olhos para as matemáticas como o projeto de construção do próprio universo. Por trás de toda pessoa excepcional, há um professor excepcional. Quando pensamos nas coisas que sabemos fazer na vida, há grandes chances de que as saibamos graças a um professor. 

No entanto, a educação, a ciência e a tecnologia correm mais perigo do que nunca. Devido à recente crise financeira global e a medidas de austeridade, há um significativo corte de verbas em todas as áreas da ciência, mas a pesquisa básica tem sido profundamente afetada. Há a ameaça também de nos tornarmos culturalmente isolados e provincianos e cada vez mais distantes de onde o progresso está sendo feito. Na questão da pesquisa, o intercâmbio entre as fronteiras permite que as habilidades sejam transferidas mais rapidamente e proporciona diferentes ideias a novos pesquisadores, derivadas de seus diferentes contextos. Isso pode facilmente contribuir para o progresso nos lugares onde hoje enfrentamos maior dificuldade. Infelizmente, não podemos voltar no tempo. Com o Brexit e Trump trazendo novas pressões sobre a imigração e o futuro da educação, presenciamos uma revolta mundial contra o conhecimento especializado, algo que inclui os cientistas. Assim, o que podemos fazer para assegurar o futuro da educação em ciência e tecnologia?

Volto a meu professor, o sr. Tahta. A base para o futuro da educação deve residir em escolas e professores inspiradores. As escolas, no entanto, oferecem apenas uma estrutura elementar onde às vezes a rotina de decoreba, equações e provas pode indispor os jovens contra a ciência. A maioria das pessoas responde a uma compreensão qualitativa, e não quantitativa, sem a necessidade de equações complicadas. Livros de divulgação científica e artigos sobre ciência também ajudam a explicar ideias sobre o modo como vivemos. Entretanto, apenas uma pequena parcela da população lê até mesmo o best-seller do momento. Documentários e filmes de ciência atingem um público imenso, mas não passam de comunicação de mão única. 

Quando comecei nessa área, na década de 1960, a cosmologia era um ramo obscuro e excêntrico dos estudos científicos. Hoje, com seu trabalho teórico e com experimentos bem-sucedidos, como o Grande Colisor de Hádrons e a descoberta do bóson de Higgs, a cosmologia descortinou o universo para nós. Há grandes questões ainda por responder e muito trabalho nos aguarda, mas sabemos mais coisas agora e conquistamos mais coisas em um espaço de tempo relativamente curto do que qualquer um poderia ter imaginado.

Porém, o que está reservado aos jovens de hoje? Posso dizer com confiança que serão mais dependentes da ciência e da tecnologia do que qualquer geração anterior. Eles precisam saber mais sobre ciência do que qualquer um antes deles, porque ela faz parte de suas vidas diárias de uma maneira sem precedentes. 

Sem especular demais, há tendências que podemos perceber e problemas incipientes que sabemos que devem ser abordados, agora e no futuro. Entre eles, incluo o aquecimento global, encontrar espaço e recursos para o crescimento descontrolado da população humana na Terra, a rápida extinção de outras espécies, a necessidade de desenvolver fontes de energia renovável, a degradação dos oceanos, o desmatamento e as doenças epidêmicas – só para mencionar alguns.

Há também as grandes invenções do futuro, que vão revolucionar o modo como vivemos, trabalhamos, comemos, nos comunicamos e viajamos. Existe um escopo imenso para a inovação em todos os domínios da vida. Isso é empolgante. Poderíamos prospectar minerais raros na Lua, criar um posto avançado em Marte e encontrar curas e tratamentos para doenças que não oferecem esperança no momento. As maiores questões da existência continuam sem resposta: Como a vida começou na Terra? O que é a consciência? Há alguém lá fora ou estamos sozinhos no universo? Essas são incógnitas para a próxima geração resolver.

Alguns acham que o atual estado da humanidade é o pináculo da evolução e que não iremos mais longe do que isso. Discordo. Deve haver algo muito especial acerca das condições de contorno do nosso universo – e o que pode ser mais especial do que não haver contorno algum? Igualmente, a diligência humana não deve se deixar limitar por nenhuma fronteira. Do modo como vejo, há duas opções para o futuro da humanidade. Primeiro: a exploração do espaço para encontrar planetas alternativos onde viver. Segundo: o uso positivo da inteligência artificial para melhorar nosso mundo.

A Terra está ficando pequena demais para nós. Nossos recursos físicos estão sendo drenados a um ritmo alarmante. A espécie humana presenteou o planeta com desastres, tais como mudança climática, poluição, elevação das temperaturas, redução das calotas polares, desmatamento e dizimação de espécies. E a população está crescendo a um ritmo alarmante. Diante dos números, fica claro que esse crescimento demográfico quase exponencial não pode continuar pelo milênio afora.

Mais uma razão para considerar a colonização de outro planeta é a possibilidade de uma guerra nuclear. Uma teoria diz que o motivo de ainda não termos sido contatados por extraterrestres é que, ao atingir um estágio de desenvolvimento como o nosso, a civilização se torna instável e se autodestrói. Atualmente temos capacidade tecnológica para destruir todos os seres vivos da Terra. Como presenciamos em eventos recentes na Coreia do Norte, esse é um pensamento desanimador e preocupante.

Mas acredito que podemos evitar o fim do mundo, e uma das melhores maneiras de fazermos isso é ir ao espaço e explorar o potencial humano de viver em outros planetas.

O segundo acontecimento que irá impactar o futuro da humanidade é a ascensão da inteligência artificial.

A pesquisa da inteligência artificial está progredindo rapidamente. Conquistas recentes como carros autônomos, um computador vencer no jogo de Go e a chegada dos assistentes pessoais digitais Siri, Google Now e Cortana são meros sintomas de uma corrida pelo progresso da IA, alimentada por investimentos sem precedentes e alicerçada em uma base teórica cada vez mais madura. Tais realizações se tornarão meras sombras diante do que as décadas vindouras trarão.

Mas o advento da IA superinteligente seria ou a melhor ou a pior coisa a acontecer à humanidade. Não temos como saber se seremos auxiliados infinitamente ou ignorados e esquecidos pela IA – ou talvez destruídos por ela. Otimista que sou, acredito que podemos criar IA para o bem do mundo, que ela pode existir em harmonia conosco. Precisamos apenas nos manter conscientes dos riscos, identificá-los, empregar os melhores métodos e controles possíveis e nos preparar com bastante antecedência para as consequências de sua total integração com o nosso mundo.

A tecnologia exerceu enorme impacto em minha vida. Falo por intermédio de um computador. Conto com o auxílio dele para ter a voz que minha doença levou embora. Fui afortunado por perder a fala no início da era do computador pessoal. A Intel tem me dado seu apoio há 25 anos, permitindo-me fazer o que amo todos os dias. Ao longo desse período, o mundo – e o impacto causado pela tecnologia – mudou drasticamente. Ela transformou o modo como vivemos, da comunicação à pesquisa genética, passando pelo acesso à informação e tantas coisas mais. À medida que se tornou mais inteligente, ela abriu as portas a possibilidades que nunca imaginei. A tecnologia sendo desenvolvida para ajudar pessoas com deficiência está dando o exemplo de como derrubar as barreiras de comunicação do passado. Geralmente é um campo de provas para a tecnologia do futuro. De voz para texto, de texto para voz, automação doméstica,  veículos adaptados (drive by wire) e até mesmo o Segway foram desenvolvidos para deficientes anos antes de entrarem em uso no dia a dia. Essas realizações tecnológicas se devem à centelha que existe dentro de nós, nossa força criativa. A criatividade pode assumir muitas formas, de realizações no mundo físico à física teórica.

Mas ainda há muito por vir. Interfaces cerebrais poderiam tornar esse meio de comunicação – usado por cada vez mais pessoas – mais rápido e mais expressivo. Hoje uso o Facebook: ele me permite conversar diretamente com meus amigos e seguidores no mundo todo, para que consigam acompanhar minhas teorias mais recentes e ver fotos de minhas viagens. Com ele também posso ver o que meus filhos andam aprontando de verdade, e não o que me dizem que estão fazendo.

Assim como a internet, os celulares, os exames de imagem, a orientação por satélite e as redes sociais teriam sido incompreensíveis para a sociedade de apenas algumas gerações atrás, nosso futuro será igualmente transformado de maneiras que mal começamos a conceber. A informação por si só não nos levará até lá, mas seu emprego inteligente e criativo, sim.

Ainda há tanto por vir e espero que essa perspectiva ofereça grande inspiração para os jovens estudantes de hoje. Mas temos um papel a desempenhar para assegurar que a atual geração de crianças tenha não apenas a oportunidade, como também o desejo de mergulhar a fundo no estudo da ciência desde o nível mais básico, de modo que um dia possa concretizar seu potencial e criar um mundo melhor para toda a raça humana. E acredito que o futuro do aprendizado e da educação está na internet. Nela é possível responder, interagir e criar uma verdadeira troca de ideias. De certa forma, a internet conecta todo mundo como os neurônios em um cérebro gigante. Com um QI desses, o que poderá estar além de nosso alcance? 

Quando eu era jovem, ainda era aceitável – não para mim, mas em termos sociais – afirmar que você não estava interessado em ciência e que não via por que se dar ao trabalho de aprender. Hoje em dia não é mais assim. Deixe-me explicar melhor. Não estou promovendo a ideia de que todo mundo deve ser cientista quando crescer. Não vejo isso como uma situação ideal, já que o planeta precisa de gente com as mais variadas habilidades. Mas defendo que todos os jovens deveriam estar familiarizados e à vontade com os temas da ciência, independentemente da carreira que seguirem. Esses indivíduos não devem crescer como analfabetos científicos e precisam ser inspirados a se envolver com os acontecimentos em ciência e tecnologia para aprender mais.

Um mundo onde apenas uma minúscula superelite é capaz de compreender os avanços científicos e tecnológicos e suas aplicações seria, a meu ver, um lugar perigoso e limitado. Duvido seriamente que projetos com benefícios de longo prazo, como limpar os oceanos ou curar doenças no mundo em desenvolvimento, receberiam prioridade. Pior ainda, poderíamos descobrir que a tecnologia é usada contra nós e que talvez não tenhamos poder para impedi-la.

QUE IDEIA REVOLUCIONÁRIA, PEQUENA OU GRANDE, VOCÊ GOSTARIA DE VER ADOTADA PELA HUMANIDADE? Essa é fácil. Eu gostaria de ver o desenvolvimento da energia de fusão como forma de proporcionar energia limpa ilimitada, e a adoção do carro elétrico. A fusão nuclear se tornaria uma fonte de energia prática e nos daria um suprimento energético inexaurível, livre da poluição ou do aquecimento global.

Não acredito em limites, seja para o que podemos fazer em nossa vida pessoal, seja para o que a vida e a inteligência podem conquistar no universo. Estamos no limiar de importantes descobertas em todas as áreas da ciência. Sem dúvida, nosso mundo vai mudar enormemente nos próximos cinquenta anos. Vamos descobrir o que aconteceu no Big Bang. Compreenderemos como a vida começou na Terra. Poderemos descobrir até se existe vida em algum outro lugar do cosmos. Embora sejam mínimas as chances de nos comunicarmos com uma espécie extraterrestre inteligente, a importância de um acontecimento como esse significa que não devemos desistir de tentar. Temos que seguir explorando nosso habitat cósmico, enviando robôs e humanos para o espaço. Não podemos continuar olhando para o próprio umbigo em um planeta pequeno e cada vez mais poluído e superpovoado. Por meio do esforço científico e da inovação tecnológica, devemos voltar nossa atenção para o universo mais amplo ao mesmo tempo em que lutamos para resolver os problemas na Terra. Sou otimista de que acabaremos criando habitats viáveis para nós em outros planetas. Vamos transcender a Terra e aprender a existir lá fora.

Este não é o fim da história, mas apenas o começo de bilhões de anos de vida florescendo no cosmos.

E um pensamento final: nunca vamos saber de fato de onde virá a próxima grande descoberta científica, tampouco quem a fará. Proporcionar acesso à emoção e ao espanto da revelação científica, criando maneiras inovadoras e acessíveis de atingir o maior público jovem possível, aumentará em muito nossas chances de encontrar e inspirar um novo Einstein. Esteja ele ou ela onde estiver.

Assim, lembre-se de olhar para as estrelas, não para os próprios pés. Tente compreender o que vê e questione o que faz o universo existir. Seja curioso. E por mais que a vida pareça difícil, sempre há algo que você pode e consegue fazer. Nunca desista. Deixe sua imaginação correr solta. Molde o futuro. 

A publicação segue com posfácio escrito por Lucy Hawking, filha do autor.

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP
16 de abril de 2022