O nosso sistema educacional

O texto que segue, praticamente em sua íntegra, por meio de mensagens eletrônicas já foi transmitido para algumas autoridades responsáveis pela gestão educacional da nossa população.

Motivado por reportagem publicada em 11.02.2016 pelo Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, tomei a liberdade de criticar, comentar e sugerir conforme segue.

É fartamente conhecida a péssima condição atual do nosso sistema de educação, público e privado, que vem se mostrando ultrapassado, obsoleto e produzindo maioria de adultos culturalmente deficientes e despreparados para o exigente cotidiano atual, impondo limitações ao desenvolvimento do país. Mais uma prova disso é a recente divulgação de que, repetindo ocorrências anteriores, os estudantes brasileiros que participaram das provas do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, o “PISA” (Programme for International Student Assessmen), mantiveram o Brasil entre os últimos colocados, 38° entre 44 países. E isso não vem acontecendo por culpa deles! A culpa é nossa, que não soubemos lhes oferecer as condições mínimas adequadas! É culpa do nosso falido sistema de ensino “engessado”, que em sua maioria produz pessoas “embotadas”, “limitadas”! Inteligência não falta aos nossos jovens! Nós não estamos lhes oferecendo as condições para que a desenvolvam e utilizem satisfatoriamente!

É mais que evidente que necessitamos de uma radical correção de métodos! Com todos nós sabendo disso, há muito tempo, é impossível não indagar; qual a razão de não estarmos utilizando as experiências de sucesso conseguidas em outros países, a exemplo da Coréia do Sul, Finlândia e Polônia, entre muitos outros? Porque não “copiar” os métodos já testados e garantidos por outros, com sucesso? Qual a razão de continuarmos “esmurrando pontas de facas”, em lugar de aprendermos com quem sabe?

Procurando e conhecendo alguns sistemas eficientes já desenvolvidos, destacam-se algumas necessidades básicas que não podemos desconsiderar, fingir que não existem, que são ineficientes! Seguem algumas.

  1. Temos que acabar com as célebres exigências de “decorebas” inúteis! Para que obrigarmos nossos jovens a decorar centenas de formulas, tabelas e gráficos, se nenhum profissional consciente os usará “de memória” no futuro, quando deles precisarem? Qual a utilidade de decorar datas e títulos de eventos históricos, se, quando necessários, poderão ser encontrados facilmente? Para que servirá decorar nomes de rios e afluentes, ou capitais de estados, se também estarão disponíveis quando necessários? E, por ai seguem, em muitos exemplos similares! Exibindo esses elementos nas aulas, e também nas provas, por meio de listagens para consultas, devemos ensinar os nossos estudantes a reconhecer, saber identificar e como utilizar as fórmulas, tabelas, gráficos e históricos que necessitarão, aprendendo como desenvolver os cálculos, à raciocinar com os dados fornecidos. Devemos ensinar o desenvolvimento da criatividade, e não o uso da memória “fotográfica”, que pode muito bem ser utilizada para fins mais nobres! Nessa linha de pensamento, as fórmulas, gráficos, tabelas, eventos, históricos, datas e similares sempre serão informados e fornecidos por meio de listagens, durante os estudos e também nas provas. Nas aulas os mesmos serão apresentados e “dissecados” na forma da aprendizagem do seu uso, e não na obrigação de os “decorar”! O mesmo deve acontecer com os fatos históricos, geográficos e similares, ensinados, desenvolvidos e “dramatizados”, mas sempre tornando disponíveis seus títulos e datas. Igualmente deve ser feito com tudo que à isso seja similar! Tudo aquilo que o futuro profissional poderá consultar para seguramente utilizar, também deve ser oferecido à consultas, durante o ensino, e nas provas! Aprender à consultar e bem utilizar é muito mais importante que a obrigação de “decorar”!
  2. Os alunos devem receber aulas, instruções e conhecimentos por meios criativos, dinâmicos, diversificados e variáveis nas formas de aplicação, segundo as necessidades do grupo, sempre adequados e adaptados à classe, de forma que os alunos estejam e permaneçam motivados à participar, a contribuir com ideias e propostas de adequações e soluções, tenham despertada a curiosidade pelos temas, participem com interesse dos assuntos ensinados, exibam criatividade no desenvolvimento das ideias e propostas! Enfim, que as aulas sejam realmente interessantes, cativantes e motivadoras. Nesse particular entendo que, atualmente, salvo quando forem úteis às aulas, o uso de celulares e equipamentos equivalentes devem ser totalmente proibidos! A tecnologia moderna deve ser utilizada nas aulas, pelos professores, quando puderem fazê-lo de forma dinâmica, participativa e criativa. Dessa maneira será indispensável!
  3. E, para que os mestres tenham mais tempo para isso, e por outras razões ainda mais importantes, devemos “acabar” com os exames e as provas criadas e ministradas pelos professores e suas escolas! Preservadas as exigências dos respectivos níveis, as “cobranças” dos ensinamentos devem ser todas realizadas coletivamente, nacionalmente, padronizadas, na mesma forma hoje utilizada pelos exames seletivos, como o ENEM e, comparativamente, pelos vestibulares. O conteúdo das matérias, ementas, que será exigido nas provas nacionais, deve ser antecipadamente informado aos diretores e professores, sempre direcionados à criatividade e ao raciocínio, para que os utilizem nos ensinamentos aos alunos, em forma similar às que hoje fazem nos “cursinhos” para vestibulares! Ao final de cada ano e/ou período, nacionalmente padronizadas, “provas” seletivas, tipo ENEM ou vestibular, serão realizadas para cada um dos níveis, adequadamente à eles dirigidas, “cobrando” o conhecimento desenvolvido, mas sempre privilegiando o raciocínio e a criatividade dos estudantes, na forma em que vem sendo feito nos testes internacionais do “PISA”, e não os “decorebas”! Os resultados obtidos pelos estudantes, além de à eles creditados, serão catalogados e analiticamente utilizados para avaliar o desempenho dos respectivos professores, diretores e gestores das escolas, que também os utilizarão como orientação para seus aperfeiçoamentos e progressos futuros, uma vez que, “livres” da elaboração de provas e exames, terão mais tempo para dedicar ao estudo próprio e à melhora dos métodos de ensino.
  4. Em paralelo, os professores precisam e devem ser valorizados, exemplarmente! Ainda que progressivamente, sua remuneração, hoje “desgraçadamente” ridícula, tem que ser elevada ao nível que merecem e tem direito, como “um dia” já o foi! Se esperamos que eles formem com sucesso bons e excelentes doutores, médicos, advogados, juízes, professores e outros eficientes profissionais, os mestres que os preparam devem ser valorizados equitativamente, para que também se mantenham progressivamente motivados e eficientes, na execução profissional que traz satisfação e orgulho como resultado! Ao mesmo tempo, todos terão que passar por frequentes “reciclagens”, renovações, atualizações nos conhecimentos e métodos de suas aplicações. Terão que “mostrar produção”, conseguir bons resultados! Para se manter nos cargos, seus alunos deverão apresentar bons resultados nas provas periódicas. O mesmo deve também acontecer para com os diretores e gestores. O grau de exigência no desempenho dos alunos deve ser crescente, até atingir níveis aceitáveis, nos moldes das provas do “PISA”, que já atingiu sistema e condições exemplares. No decorrer do tempo, ultrapassado período razoável máximo de adequações, permanecem em seus cargos os melhores, professores, diretores e gestores, preferivelmente recebendo alguma forma de bônus que recompensem seus progressos! Os deficientes deverão procurar melhorar, para depois retornar, ou não, às suas funções! As admissões de professores, e todos os profissionais da área, devem passar a exigir um nível mínimo de boa e ótima eficiência comprovada, igualmente sempre privilegiando a criatividade, o raciocínio, a desenvoltura!
  5. Nossas escolas, em todos os níveis, devem oferecer mais atenção para o ensino e desenvolvimento das artes, estéticas e comunicativas, que são parceiras indispensáveis da educação, em todos os sentidos e motivos que possam ser imaginados, uma vez que contribuem decisivamente com a criatividade e no interesse pelas ciências, exatas e humanas.
  6. Defendo também, fortemente, a ideia e proposta do ensino plenamente laico, em todas as escolas e níveis. Temos o dever, a obrigação de conseguir atingir essa meta, que está sabiamente determinada em nossa Constituição! Entretanto, se for necessário atender e apaziguar os acentuados entendimentos contrários, deveremos então determinar o ensino, o estudo e o debate da religiosidade, em suas origens, desenvolvimentos e diversificações, sem influenciar e direcionar para crenças ou descrenças específicas.
  7. Considero ainda que seria plenamente salutar intensificar no currículo disciplinar oficial aulas especialmente voltadas à conscientização e ao ensino a respeito dos recursos e cuidados com as condição, qualidade, manutenção e preservação do meio ambiente, da ecologia e dos recursos hídricos, pensando não apenas nos atos futuros dos estudantes, mas também nos ensinamentos e “cobranças” que eles certamente transferirão às suas famílias e pessoas próximas.
  8. As escolas devem ser fiscalizadas e mensuradas por profissionais de nível adequado, independentes das mesmas, circulando permanentemente entre todas, realizando avaliações de resultados, supervisionando procedimentos, literalmente fiscalizando os trabalhos e a obtenção de bons e produtivos resultados, entre estes, sempre averiguando o nível de satisfação, prazer e motivação dos alunos em estar ali estudando. Algo vai mal? Depois de uma oportunidade não aproveitada, trocam-se diretores, gestores e/ou professores, oferecendo chances para outros mais motivados e eficientes!
  9. Sabendo também enfrentar fortes correntes contrárias, creio que não existem dúvidas de que, principalmente nos níveis básicos e intermediários, temos que estender o ensino à dois períodos, no mínimo! Isso é indispensável!

Outras medidas importantes existem! Diversas!

Certamente, os eternos “pessimistas” argumentarão; “não temos verbas para tudo isso!” Talvez não tenhamos, mesmo, principalmente nos dias e condições atuais! Mas, se continuarmos na “zona do conforto”, “do comodismo”, não tomando atitudes, não determinando metas e planejamentos, nunca teremos resultados! Uma gestão eficiente nas verbas atualmente disponíveis, cerceando os “desvios”, “desperdícios” e maus usos, certamente resultará no seu melhor aproveitamento! Além disso, muitas das iniciativas necessárias não dependem de “verbas”, mas sim, de iniciativa, disposição, seriedade e boa vontade! Temos que começar! Temos que “disparar” metas e motivações, sérias, contundentes, obrigatórias! Se assim não fizermos, nunca faremos algo sério! Continuaremos na bancarrota, “ladeira abaixo”, prejudicando nossos jovens e toda geração futura, e, com eles, impedindo o progresso da nação!

Não temos o direito de ignorar que os países que desenvolveram as iniciativas citadas melhoraram, em tudo! Hoje seus jovens são mais ativos e desenvolvidos, mais participativos e produtivos, seus políticos são mais sérios e coerentes, seus dirigentes e gestores são mais competentes, e a nação cresce e progride sadiamente, em todos os sentidos.

Podemos sim! Devemos! Temos a obrigação, de “disparar” atitudes que nos levem a produzir melhores resultados, ainda que a longo prazo! Iniciando, um dia conseguiremos “chegar lá”!

A maioria das ideias para essas propostas não foram por mim “criadas”, “inventadas”! São resultados da leitura de diversos livros, de autores que constataram a eficiência das mesmas. A respeito do mesmo assunto, citando diversos desses autores e suas obras, importantes e indispensáveis, outro texto por mim desenvolvido, há algum tempo, está disponível em: http://snookerclube.com.br/educacao/.

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP
18.02.2016