Educação Riqueza na Ponta do Lápis

Reprodução integral de reportagem da Revista Veja de 16 de dezembro de 2015 – Matéria de Mônica Weinberg – De Doha (Os trechos com destaques em negrito são nossos).

EricHanushek03Causa e Efeito – O mestre Hanushek – Pioneiro em demonstrar com cálculos precisos quanto o ensino de qualidade gera riqueza para um país.

RIQUEZA NA PONTA DO LÁPIS

Doutor em economia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), o americano Eric Hanushek, 72 anos, tem uma visão peculiar da educação, à qual vem se dedicando há mais de três décadas. Enquanto a ideologia ainda impera no debate, ele trabalha para estabelecer relações entre o que ocorre na sala de aula e o vigor das economias. Nesse campo, é considerado o mestre. Seu modo direto de argumentar costuma suscitar antipatias. “Sei que sou odiado“, diz o hoje professor da Universidade Stanford. Convidado do Wise, congresso que reuniu os maiores especialistas da área, Hanushek falou a VEJA em Doha, capital do Catar.

O BÊ-Á-BÁ DO PIS

EricHanushek01Virou lugar-comum dizer que a educação está na base da riqueza. O espetacular é saber quanto ela é definitiva para o resultado de uma economia. Fiz um estudo para os últimos cinquenta anos em quase oitenta países e observei uma coerência impressionante: a boa formação escolar de uma população explica em torno de 75% do PIB. E olhe que estamos tratando apenas de conhecimento básico mesmo, assimilado nos anos escolares – matemática, linguagem, ciências e a capacidade de juntar as peças e solucionar problemas simples. É a partir do domínio do mais rudimentar que se vai chegando às áreas do pensamento de maior complexidade e valor, à criatividade e à inovação.

O PODER DAS INSTITUIÇÕES

Tirando a educação, o PIB se eleva pela qualidade das instituições que um país reúne e pelo grau de abertura da economia. O casamento mais poderoso em prol da produtividade e da riqueza se dá justamente entre bom ensino e instituições de alto padrão. A Coreia do Sul é um caso emblemático: as escolas ali estão entre as melhores do mundo, e as leis que regem a economia favorecem o talento ao extremo. Existem também aquelas nações de educação mediana, mas que contam com um motor institucional tão potente que acabam compensando o lado do ensino. Nesse grupo incluo os Estados Unidos. Infelizmente, o Brasil ainda pertence ao rol de países em que tanto a sala de aula quanto as instituições demandam avanços. E por isso o PIB brasileiro patina.

SÓ A QUALIDADE CONTA

Embora com atraso em relação às metas estabelecidas pelas Nações Unidas, houve progresso notável no mundo inteiro em relação à inclusão de crianças na escola. Em países com renda média, cerca de 80% dos alunos já encerram o ensino fundamental. Mas isso não significa que estejam aprendendo para valer. Muitas vezes não estão e, sem aprender, todo o esforço terá sido em vão. A quantidade de matrículas, pura e simplesmente, não leva a crescimento algum. Está lá no Pisa, o mais importante exame para comparar a educação entre países: é a qualidade que alavanca a economia, e não a quantidade.

O PESO DE UM BOM MESTRE

Um professor pode mudar de forma decisiva a trajetória de um aluno. Um de meus cálculos mostra que, se um estudante é exposto às aulas de um profissional de alto gabarito, egresso da turma dos 25% melhores mestres, ele tende a ganhar 16000 dólares a mais por ano do que outros que frequentam a classe de professores medianos ou ruins. Bons profissionais da sala de aula são imprescindíveis para começar a pensar em elevar a capacidade produtiva de um país. Sem eles, esqueça todo o resto.

PROVA, PROVA, PROVA

Professores precisam ter seu desempenho em sala avaliado, mas a maioria teme e resiste à ideia. Argumentam que assim perdem a liberdade de ensinar. Repare que, em geral, o pessoal do contra é o que não vai bem no ofício e, por razões óbvias, se recusa a ver as próprias fragilidades expostas. É a opinião desses que costuma prevalecer. Eles impedem algo que é muito comum em tantas outras áreas e ambientes de trabalho: um retorno sobre o desempenho e um prêmio diante dos resultados. Não por acaso os mestres mais esforçados e talentosos agem de forma contrária. Aceitam passar pelo escrutínio, procuram saber em que vão bem ou mal e desejam avançar, sempre. É um padrão mundial.

O TABULEIRO GLOBAL

Há países muito mais instruídos do que outros, comparação mais do que necessária nos dias de hoje. Se olharmos para estudantes do 9º ano do Peru e de Singapura, por exemplo, veremos que a diferença de aprendizado entre eles equivale a cerca de quatro anos escolares. O que isso significa? Que, no final do ensino fundamental, é como se os peruanos estivessem na 5ª série e os alunos de Singapura, na 9ª. Não precisa nem dizer quem tem mais chance de competir globalmente e construir o maior PIB.

NADA DE MODA

A educação é um terreno fértil a modismos e achismos. Agora, tem-se falado muito da importância das habilidades socioemocionais, como persistência, criatividade, capacidade de trabalhar em equipe, mas a verdade é que ninguém sabe ainda como e em que medida elas podem ser desenvolvidas na escola. Falta estudar essa questão, assim como tantas outras, sem deixar que simpatias e ideologias se sobreponham aos fatos. Não adianta ir ao sabor da moda nem dos interesses políticos. Só o investimento contínuo em políticas educacionais sensatas levará ao pote de ouro.

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP