Educação O Bedel Eletrônico

Reprodução integral do editorial publicado pelo Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, de 07.10.15.

* Os destaques em negritos são nossos

Em um País onde a educação sempre acaba ficando em segundo plano e a escola pública assiste a um triste declínio de qualidade, apesar dos esforços de alguns setores do governo, chama a atenção a notícia de que o programa “Quem falta faz falta”, desenvolvido pela Secretaria de Estado da Educação, tem obtido bons resultados em Sorocaba. O assunto foi tema de reportagem deste jornal (Evasão escolar – Programa notifica 400 alunos faltosos, 3/9, pág. A8). De acordo com depoimento do dirigente regional de Ensino de Sorocaba, Marco Aurélio Bugni, a secretaria notificou pelo menos 400 pais ou responsáveis por alunos que deixaram de ir à escola desde o mês de agosto. Desse total, pelo menos a metade voltou a frequentar a escola depois que seus pais receberam ligação da central telefônica da Secretaria da Educação, uma espécie de bedel (antigo responsável pela disciplina nas escolas) à distância.

A legislação do Estado de São Paulo determina que serão comunicados todos os pais de alunos que atingirem 10% de faltas em determinado período. Anteriormente, os responsáveis pelos estudantes eram avisados quando eles se ausentavam em 20% das aulas. A regional de Ensino de Sorocaba é uma das três escolhidas para desenvolver o projeto-piloto.

Em Sorocaba, a evasão escolar, que é relativamente baixa nos dois ciclos do ensino fundamental (1% e 3%, respectivamente) se acentua no ensino médio, quando atinge 7%. Há duas explicações para essa debandada dos bancos escolares. Essa é a fase em que os alunos mais carentes começam a trabalhar e muitas vezes não conseguem conciliar trabalho com estudos. Há também a questão da desinformação, pois até 2013, os estudos eram obrigatórios dos 6 aos 14 anos, quando normalmente o ensino fundamental seria concluído. Hoje, é obrigatória a educação dos 4 aos 17 anos, com a conclusão do ensino médio, mas boa parte da população desconhece essa obrigatoriedade.

Há um consenso entre os estudiosos do assunto de que um país se desenvolve com mais velocidade se investir maciçamente em educação/conhecimento e infraestrutura. Não são os únicos fatores que propiciam um rápido crescimento, mas são fundamentais, oferecendo a base física e população preparada para um progresso duradouro. O processo desenvolvido pela Coreia do Sul se tornou um exemplo clássico em que os investimentos na área educacional resultam no progresso geral da nação. Em 1960, a Coreia do Sul apresentava índices sociais e econômicos comparáveis aos países mais pobres da Ásia. Logo após a Guerra da Coreia (1950-1953) que dividiu o país ao meio, o PIB per capita era de US$ 883, mais baixo que o de Moçambique, por exemplo. Em 2004, após o esforço concentrado em educação, o PIB chegou a US$ 1 trilhão e hoje é a 15ª economia do mundo, apesar de seu pequeno território. A Coreia do Sul exporta automóveis, produtos eletrônicos sofisticados e tecnologia de ponta para todo o mundo.

O país asiático atingiu esse padrão de qualidade e acesso à educação graças a investimentos maciços, principalmente na formação de professores, melhoria da estrutura e funcionamento das escolas e investimentos em material de apoio. Não se pode esquecer também que outro fator importante é a tradição oriental de disciplina e valorização da educação. As aulas na Coreia do Sul para o equivalente ao novo ensino fundamental começam às 7h30 e terminam às 17h. Após esse horário, muitos vão para uma escola privada onde têm aulas à noite.

O Brasil tem bons projetos na área da educação. Um deles é o Plano Nacional de Educação (PNE), sancionado pela presidente Dilma Rousseff em junho do ano passado. O plano estabelece 20 metas a serem cumpridas até 2024 e abrange desde a educação infantil aos cursos de pós-graduação. Uma das metas, talvez a mais importante, é a que estabelece o investimento de 10% do PIB na educação até o fim da vigência do PNE. O problema é que no Brasil, projetos como esse demoram a decolar, se arrastam pela burocracia e falta de cumprimento das metas em vários níveis. Entre as primeiras metas do PNE está a aprovação da Lei de Responsabilidade Educacional, elaborada para assegurar um padrão de qualidade para a educação básica. Essa lei, entretanto, sequer foi aprovada. Ela deveria estar em vigência desde junho passado.

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP