Algumas “Feras” Brasileiras

São muitos os nossos grandes jogadores. Tantos que, sem dúvida, ao listar nomes certamente alguns não serão lembrados, em indesejável injustiça!

Mesmo assim, não podemos deixar de citar os nomes lembrados, daqueles que, com justiça, fizeram fama em sua época e nos dias atuais.

Um grande mito é o sergipano Walfrido Rodrigues dos Santos, conhecido como “Carne Frita”, hoje radicado em São Paulo, capital, que, em época na qual a televisão e outras mídias ainda não se interessavam pela Sinuca, com sua fama e história transmitidas “boca-a-boca”, tornou-se conhecido e famoso em todo o Brasil, pela sua incomparável perícia técnica, indiscutivelmente elevando a Sinuca à categoria de arte.

Depois, com a transmissão de jogos pela TV, rapidamente transformaram-se em ídolos nacionais o Rui (Chapéu) Mattos Amorim e o Roberto Carlos de Oliveira.

Hoje, algumas dezenas de importantes personalidades praticam o esporte seriamente, nas Federações, em salões comerciais, associações, clubes e também em suas residências, além de disputar os principais certames nacionais, e alguns internacionais.

Neste momento recordo-me de alguns nomes importantes e de grande destaque no nosso esporte:

Com títulos internacionais:

Campeão Sul-americano de Snooker: Noel – PR
Campeão Pan-americano de Snooker: Miguelzinho – GO
Vice Campeão Pan-americano de Pool (Bola 9 ou Nine Ball): Fabinho – PR

Os mesmos, e outros, já devem ter arrebatado outros títulos internacionais, ainda desconhecidos por mim. Oportunamente farei a atualização. Se você tem essa informação, por gentileza, comunique-se comigo: paulodias@pdias.com.br

Destaques nacionais: categoria masculina:

Carne Frita-SP; Roberto Carlos-GO; Rui Chapéu-SP; Noel-PR; Igor-RJ; Ratinho-SP; Gabiais-GO; Jota-SP; Miguelzinho-GO; Ratinho-SP; Jesus-SP; Fabinho-PR; Ítaro-PE; Jairzinho-RJ, Tuzinho-RS; Zico-RJ; Carioca-SP; Bozzinha-PR; Thadeu-RJ; Koca-SC; Sobradinho-DF; Rui Trindade-DF; Jesus-CE; Mi-GO; Wilson-BA; Tim-MG; Zé Luiz-SP; Marciano-ES; Praça-SP; Joaquinzinho-SP; Rubens Boca-SP; Papinha-MG; e diversos outros, muitos!

Destaques nacionais: categoria feminina:

Carmelita-SP; Alexandra-SP; Cláudia-PR; Fernanda-RJ; Sal-SP; Silvia-SP; Magali-RS; Paula-RS; Mércia-BA; Joice-PR; Mariana-PR; Xanda-RS; e diversas outras.

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP

Os Campeões Brasileiros

Com títulos internacionais:

  •   Campeão Sul-Americano de Snooker: Noel PR
  •   Campeão Pan-Americano de Snooker: Miguelzinho GO
  •   Vice Campeão Pan-Americano de Pool – Nine Ball (Bola 9): Fabinho PR

Os mesmos, e outros, já devem ter arrebatado outros títulos internacionais, ainda desconhecidos por mim. Oportunamente farei a atualização. Se você tem essa informação, por gentileza, comunique-se comigo. Antecipadamente agradeço: paulodias@pdias.com.br

Campeões e Vices Brasileiros:

Pela ordem: ANO – CATEGORIA – CAMPEÃO UF – VICE UF

2016 Snooker Máster: Noel Rodrigues PR – Vice: Wellington Faria DF

2016 Snooker Sub-21: Gabriel Campos PR  – Vice Rayan Menechini RJ

2015 Snooker Feminino: Carmelita SP – Vice: Alexandra PR

2015 Snooker Máster: Igor SP – Vice: Fabinho PR

2015 Snooker Máster 40: Noel SP – Vice: Robson DF

2015 Snooker Red Six Sênior: Jairzinho RJ – Vice: Koca SC

2015 Snooker Sub-21: Amaury Brasil PR – Vice: Matheus Fatuch PR

2014 Snooker Masculino: Igor SP – Vice: Thadeu RJ

2014 Snooker Masters IBSF: Noel PR – Vice: Ronald SP

2014 Snooker Sub-21: Amaury PR – Vice: Matheus PR

2014 Snooker Six Reds Senior – Carioca SP – Vice: Ratinho SP

2014 Sinuca Especial: Igor SP – Vice: Fabinho PR

2014 Sinuca Masters: Faria MG – Vice: Robson DF

2014 Sinuca Sênior: Ratinho SP – Vice: Cesar SP

2014 Sinuca Sub-21: Gabriel PR – Vice: Guilherme RJ

2013 Sinuca Mista Feminino: Carmelita SP – Vice: Alexandra SP

2013 Snooker Master: Igor SP – Vice: Fucuta SP

2013 Sinuca Mista: Cleber PR – Vice: Paulinho SP

2013 Sinuca Mista Sênior: Carioca SP – Vice: Corazza SP

2013 Sinuca Mista Sub-21: Gabriel PR – Vice: Guilherme RJ

2012 Snooker: Igor RJ – Vice: Fabinho PR

2012 Sinuca Mista: Noel PR – Vice: Manu RN

2012 Sênior: Carioca SP – Vice: Ferreira SP

2012 Feminino: Carmelita SP – Vice: Alexandra SP

2012 Sub-18: Gabriel PR – Vice: Rayan RJ

2011 Snooker: Fabinho PR – Vice: Igor SP

2011 Sinuca Mista: Vaca PR – Vice: Marciano ES

2011 Sênior: Jairzinho RJ – Vice: Carioca SP

2011 Feminino: Mariana PR – Vice: Alessandra SP

2011 Sub-18: Gabriel PR – Vice: Mateus PR

2010 Máster: Noel PR – Vice: Bozzinha PR

2010 Sênior: Carioca SP – Vice: Koca SC

2010 Feminino: Carmelita SP – Vice: Joice PR

2009 Sinuca Mista: Bebeto GO – Vice: Noel PR

2009 Nine Ball: Antônio Fazanes SP – Vice: Caio SP

2008 Máster: Igor RJ – Vice: Fabinho PR

2008 Sênior: Jacireno GO – Vice: Esquerdinha RJ

2008 Juvenil: Foguinho BA – Vice: Preguinho PR

2008 Sub-25: Eduardo PR – Vice: Rodrigo – PR

2008 Feminino: Mariana PR – Vice: Silvia – SP

2006 Máster: Noel PR – Vice: Igor RJ

2005 Máster: Igor (e 96 e 99) MG (RJ) – Vice: Noel PR

2005 Sênior: Jacireno GO – Vice: Laerte RJ

2005 Feminino: Silvia SP – Vice: Paula RS

2004 Máster: Jota SP – Vice: Igor RJ

2004 Sênior: Rui Trindade DF – Vice: Jesus CE

2004 Feminino: Carmelita (e 02) SP – Vice: Magali RS

2002 Master: Mi GO – Vice: Wilson BA

2002 Senior: Jesus CE – Vice: Willian SP

2002 Feminino: Carmelita (e 04) SP – Vice: Cristina SP

2000 Máster: Noel PR – Vice: Wilson SP

2000 Sênior: Braga RJ – Vice: Pedro Renato ES

2000 Feminino: Magali RS – Vice: Silvia SP

1999 Máster: Igor (e 96 e 05) RJ – Vice: Jota SP

1999 Feminino: Mércia BA – Vice: Cristina BA

1997 Miguelzinho (e 87) RJ – Vice: Wilson SP

1996 Igor (e 99 e 05) RJ – Vice: Noel PR

1995 Ratinho SP – Vice: Sobradinho DF

1992 Rui Trindade DF – Vice: Miguelzinho RJ

1988 Carioca SP – Vice: Jesus SP

1987 Miguelzinho (e 97) GO – Vice: Ratinho SP

1986 Roberto Carlos GO – Vice: Rui Chapéu SP

1982 Joaquinzinho SP – Vice: Rubens Boca SP

1980 Jesus (e 79) SP – Vice: Papinha MG

1979 Jesus (e 80) SP – Vice: Sadala RJ

1978 Praça SP – Vice: Wilson RJ

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP

Pool – Bola Nove (Nine Ball)

Criado nos EUA com diferentes modalidades – Bola 8, Bola 9, 14×1 e outras -, o Pool é uma variação das regras dos Jogos do Bilhar e do Snooker. Sob os cuidados do eficiente marketing americano extrapolou fronteiras, com divulgação e prática em todos os continentes.

A mesa oficial para o Pool tem campo de jogo pouco menor que a nossa de Sinuca e Snooker, com 2,54 x 1,27 m, e tem caçapas com aberturas proporcionalmente bastante maiores que as do Snooker e Sinuca.

A versão Bola 9 – Nine Ball – usa uma bola branca e 9 numeradas, com aproximadamente 5,7 cm de diâmetro, pouco maiores que as da sinuca, que são visadas por ambos jogadores e devem ser encaçapadas na sequência crescente, dando a vitória à quem finalmente converter a bola 9, independentemente de quem encaçapou as bolas anteriores.

Destacam-se nessa modalidade algumas curiosidades:

a) a mesa menor e com caçapas maiores, a reduzida quantidade de bolas e a simplificação das regras tornam o jogo bastante rápido, dinâmico e com grande “mataria”;

b) o jogador que converte a bola 9 é o vencedor, mesmo que o seu oponente tenha anteriormente encaçapado todas as outras oito bolas, ainda que em única sequência de tacadas;

c) não ocorrendo com assiduidade, também será vencedor da partida o jogador que encaçapar a bola 9 na tacada de saída, ainda que a única; e,

d) não é exigido cantar a caçapa, valendo a conversão das bolas em qualquer delas. Como única exceção, é permitido que, quando determinado em regulamento de evento, os jogadores sejam obrigados à cantar a caçapa visada somente para a conversão lícita da bola 9.

As regras internacionais do Pool também são oficiais no Brasil.

Contando com forte apoio da mídia, principalmente televisão, nas categorias masculina e feminina, a versão Nine Ball vem surpreendendo com acentuado crescimento e promoção de grandes campeonatos, reunindo jogadores de muitos países, atraídos principalmente pelos vultosos prêmios oferecidos que, geralmente, oscilam entre US$ 10.000 a US$ 25.000, ou mais em alguns.

Diversas cidades americanas, como Las Vegas, Flórida, Albuquerque, Alpine (Califórnia), Atlantic City, Michigan, Carolina do Norte, Peoria (Illinois) e outras, vem promovendo esses eventos com frequência, com dois ou mais por mês.

A Confederação Brasileira já realizou no Brasil alguns campeonatos do Nine Ball, internacionais e brasileiros, e algumas federações tem promovido certames locais e estaduais, mas a sua prática entre nós ainda se mostra bastante tímida.

Atualmente, com pouca ou nenhuma atenção da televisão brasileira aberta, alguns canais fechados começam a se interessar. Há algum tempo a ESPN Internacional exibia regularmente no Brasil alguns campeonatos de projeção internacional, inicialmente editados nos EUA e retransmitidos para boa parte dos nossos estados. Alcançando bons níveis de audiência, nos últimos meses estavam exibindo transmissões com sonorização e comentários aqui gravados, com participação de comentaristas e jogadores brasileiros de projeção.

Aconteceram algumas transmissões ao vivo, mas geralmente as gravações aconteciam nas quartas feira e as transmissões nas sextas, com algumas reprises durante a semana, em horários variados. Não tendo assistido mais tais realizações, desconhecemos se mantém continuidade ou não!

Na televisão internacional predominam eventos femininos, onde estrelas como Allison Fisher, Karen Corr, Jeanette Lee, Ga Young Kim, Gerda Hoffstater, Ewa Lawrence, Tiffany Nelson, Vivian Villareal, Monica Webb, Helena Thornfeldt e outras dão show de técnica e competência.

São exibidas etapas do campeonato mundial, com patrocínio da WPBA – Womem Professional Billiard Association e APA – American Pool Players, uma liga que conta com mais de 250.000 membros ativos e, juntamente com o Pool, promove ações beneficentes para os desabrigados do Tsunami, do Katrina e outras catástrofes, além de entidades como “Unicef”, “Make a Wish”, “World Vision”, e outras com portadores de fibrose cística, câncer, etc. Nos certames masculinos, alguns nomes de projeção no Nine Ball são; Johnny Archer, Charlie Williams, Rodney Morris, Luc Salvas, Marlon Manalo, Gabe Owen, e outros.

Algumas variações do Nine Ball vem também atraindo o público, como as exibições de malabarismos – Trick Shot -, cujo sucesso levou a ESPN a patrocinar uma etapa do mundial da modalidade, com destaque para campeões como o italiano Stefano Pelinga – http://www.stefanopelinga.com – que venceu dois lendários jogadores da modalidade; o Dr. Tom “Cue” Rossmann e o Mikey Massey. Nessa modalidade um dos jogadores sugere uma exibição e a apresenta, para que o oponente tente executá-la, com direito a duas oportunidades. Conseguindo marca um ponto, vencendo quem executar de forma perfeita a maior quantidade de exibições. Para isso usam como auxiliares os mais inusitados materiais; lenços, moedas, garrafas, botas, saquinhos de pipoca, taças de cristal e outros. Geralmente concedem ainda um prêmio, do gênero “mister simpatia”, para o mais simpático e bem humorado entre os jogadores.

Outra variação transmitida pela TV foi o torneio “Texas Hold’Em Billiards”, com jogos e apostas que mesclavam regras do poker, com “all in”, “pote”, “bet” e outros, onde só o campeão levou o prêmio total de US$ 100.000. Mais uma variação transmitida foi o “Skins Billiards Championship”, com mesclas do jogo de golfe, onde o prêmio total atingiu US$ 130.000, dos quais o campeão, Santos Sanbajon, levou US$ 73.500.

Aconteceu também o “Wheelchair 9 Ball Championship”, promovido pela NWPA – National Wheelchair Poolplayer Association, a associação dos jogadores de pool em cadeira de rodas, constituído por dois eventos distintos, com seus vencedores, Aaron Aragon e Kurt De Klerck, disputando o título máximo, e os terceiro e quarto colocados disputando o “Scotch doublés”, um torneio de duplas, cada um com uma jogadora profissional como parceira.

Para o Brasil a ESPN entregou as narrações dos jogos para o João Carlos Albuquerque, conhecido por apresentar o programa de automobilismo “No limite”, da mesma emissora, fazendo dupla com a Silvia Taioli, destacada atuante paulistana. A Silvia é engenheira química. Ainda garotinha foi iniciada na sinuca por seu pai, e hoje é instrutora e árbitra de sinuca, já foi campeã brasileira de sinuca, três vezes campeã paulista, diretora do departamento feminino de sinuca da Federação Paulista de Sinuca e Bilhar, e agora vem se destacando como comentarista de Pool pela ESPN Internacional. Mais informações sobre ela estão em: http://www.aulasdesinuca.com.br.

Curiosidade contada pela Silvia: sabe-se que, nos EUA, produziram um filme retratando a vida das jogadoras profissionais de Pool, estrelado pela Jennifer Baretta, uma jogadora lindíssima, com apoio técnico das campeãs mundiais Karen Corr e Kelly Fisher. De “boca pequena” houve-se falar de um possível filme brasileiro, drama familiar, envolvendo destacadamente a Sinuca.

As informações desta matéria tiveram a colaboração da Silvia Taioli.

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP

Saloon – Conto de Sérgio Faraco

Para tratar de assuntos da sinuca fui apresentado por amigo comum ao escritor rio-grandense-do-sul Sergio Faraco, também praticante do esporte, à mim resultando em grata amizade e feliz parceria no lançamento do livro “Snooker: tudo sobre a sinuca”, publicado em 2005 pela L&PM, hoje esgotado em sua segunda edição. Nesse livro o Faraco concordou em incluir seu conto “Saloon”, originalmente publicado no seu livro “Contos Completos”, Porto Alegre, L&PM, 2004. Admirador do famoso escritor e das suas dezenas de obras – listadas em http://www.sergiofaraco.com.br/ -, tenho especial apreço por esse conto, a seguir reproduzido com autorização do autor, por retratar de forma agradável e simpática uma era polêmica, quase romântica e geralmente “mal vista”, vivida pelos adeptos da sinuca. Esse conto foi dedicado ao amigo que nos apresentou, também gaúcho e praticante do esporte, Homero Magajevski.

SALUN
De Sergio Faraco
Para Homero Magajevski

– Bola quatro ao meio – disse o velho.

Um homem entrava no bar e parou, ficou olhando. A bola bateu no bico da caçapa, não caiu e o velho se queixou:

– Não é meu dia.

O recém-chegado sentou-se a uma mesinha de canto e chamou o garçom. Era moço ainda, moreno-claro, traços indiáticos. Vestia calça de brim azul, tênis e um colete preto sobre a camisa branca, arremangada. Trazia a barba por fazer e presos os longos cabelos pretos numa fita que, desde muitas luas, não gozava dos benefícios da água.

O garçom trouxe a bebida, o homem observava o jogo, em que se enfrentavam um mulato retaco e o velho de tez azeitonada que perdera a bola quatro. O mulato dava vantagem e vencia. Era bom jogador, ao passo que o velho, sobre aparentar nervosismo, era aquilo que, nas rodas de sinuca, chamam pangaré.

A certa altura, qualquer aficionado teria percebido que o mulato, deliberadamente, começou a jogar mal. Derrotado, propôs dobrar a parada. E logo tornou a ganhar. Teria percebido também, pelo diálogo dos olhos, que três ou quatro indivíduos à volta da mesa eram comparsas do ganhador.

Mais de hora se passava quando o velho, errando uma bola seis que o outro lhe facilitara, desanimou e sentou-se, cabisbaixo, taco entre os joelhos. O mulato, quase irritado com tanta ruindade, matou a bola cor-de-rosa com um tiro seco ao meio e fechou a partida com duas pretas na mesma caçapa, ao fundo.

– Venha – exigiu, fazendo sinal com os dedos.

– Tá na caçapa.

– Não tá, não. Venha.

O homem do rabo-de-cavalo olhava placidamente para o velho, decerto também vira que nenhuma cédula fora colocada na caçapa, como até então vinham fazendo e é o que se impõe num jogo a valer. A aposta, ainda que dobrada, era irrisória, mas o velho meneava a cabeça e não dizia nada. O mulato agarrou-o pelo braço, sacudindo-o, e a resposta veio num fio de voz:

– Perdi tudo…

– Até a vergonha – rosnou o mulato.

E aplicou-lhe um joelhaço na coxa.

– Calma, Gorila – disse o dono do bar, atrás do balcão.

O velho, mancando, foi guardar o taco na taqueira, e o garçom, que ouvira a conversa, foi atrás.

– A despesa, amizade.

– Amanhã eu…

– Amanhã? Tá sonhando? Amanhã é pó de traque – e mostrou-lhe um papel com uns rabiscos.

Antes que o velho dissesse qualquer coisa, o homem do rabo-de-cavalo estalou os dedos e indicou o próprio peito.

– Deus é grande – disse o garçom -, o prejuízo mudou de bolso.

O velho olhou em torno, como querendo identificar seu benfeitor, e rapidamente se retirou. Gorila e seus amigos se olharam.

– Bonito gesto – disse Gorila, arrastando uma cadeira para a mesa do desconhecido. – Me acompanha numa cervejinha?

– Não bebo.

O mulato pegou o copo e provou:

– Arre! Guaraná! É promessa?

– Questão de gosto.

O garçom esperava. O homem desembolsou uma carteira estofada, que todos viram, mas ao abri-la protegeu-a com o corpo. Pagou a conta do velho e o guaraná.

– Valeu, comandante – disse o garçom.

-Traz uma, Alemão – disse Gorila. – Tô simpatizando contigo, cabeludo. Não vai me dizer que também faz rolar uma bolinha…

– Às vezes.

– Olha aí, gente, o cabeludo diz que rola uma bolinha às vezes. A modéstia dele! Garanto que é um campeão!

A parceria achou graça.

– Dos bons, quem tu já viu jogar? O Boneco? O Tuzinho? – tornou, obtendo como resposta um gesto vago. – Confessa, cabeludo, tu é do ramo – e deu-lhe um tapinha nas costas.

O homem retesou-se, o mulato não percebeu e continuou:

– Já te vi em algum lugar. No Check-Point? No Julius?

– Pode ser – disse o outro, levantando-se.

– Ué, já vai? – e o mulato abriu os braços, como condoído. – E vai assim, sem fazer pra galera uma demonstração da tua catega?

– Uma partida só eu posso jogar, se faz questão.

– Uma só? Que egoísmo, cabeludo! Vá lá, uma só, pra refrescar o saco – e foi colocar as bolas em seus pontos.

O homem escolheu um taco na taqueira. Antes de sortearem a saída, Gorila espalmou a mão no pano.

– Vale uma cervejinha? Pra ter graça.

– Pra ter graça, uma cervejinha é pouco.

– Ora, ora, ora – riu-se Gorila, e com um gesto de quem se rende estipulou um valor maior. – Tá bom assim?

– Mixaria.

O sorriso apagou-se no rosto do mulato e entre ele e os comparsas houve uma troca de olhares que, por certo, valia muitas frases.

– Quanto te agrada?

O outro quintuplicou a aposta e repetiu: “Pra ter graça”.

– Numa partida só? Que é isso, cabeludo? Olha que eu te conheço, eu sinto que te conheço!

E sentou-se. Encostado na mesa, o homem o olhava, impassível.

– Olha o índio tripudiando – disse um dos comparsas.

– Eu conheço esse cara… Porra, cabeludo, eu te conheço!

O homem pôs-se a taquear sem direção, contra as tabelas.

– Alguém mais quer jogar? Uma partida só e dou 7 pontos.

– Pra mim também? – quis saber o Gorila, num tom de quem se exclui.

– Não. Pra ti… te dou 10.

– O índio é galo – disse um baixinho de boné virado, que bebia debruçado no balcão.

Gorila levantou-se, pálido.

– Olha aqui, figurinha…

– Devagar, Gorila – advertiu o dono do bar, com impaciência.

– Devagar? O cara tá querendo me humilhar!

– Tá com medo, Gorila? – de novo o baixinho.

– Medo? Eu? Não viram o que eu fiz com aquele velho de merda, que também cantou de galo? Saiu depenado. Eu tenho história, tá sabendo? Arruma as bolas!

– Arruma tu – disse o homem.

Houve um momento de indecisão, mas o garçom, solicitamente, fez com que as bolas tornassem aos seus pontos. Sorteada a saída, esta tocou para o mulato. Ambos colocaram as cédulas na caçapa do meio e as do Gorila, amarrotadas, eram aquelas que ganhara do velho e muitas outras que teve de juntar.

– Mas que te conheço, te conheço – resmungou, enquanto passava giz no taco. – Como é teu nome?

– Nome não vale ponto – disse o outro, sem olhá-lo.

– Essa eu quero ver – disse o dono do bar.

Gorila deu a saída, deixando a bola vermelha encostada na tabela oposta, ao fundo, e a bola branca quase atrás da sete. A vermelha não estava descoberta e ouviu-se um zunzum quando o homem, ao invés de optar por nova saída, cantou sua jogada:

– Bola seis ao meio.

A bola cor-de-rosa caiu limpa na caçapa onde estava o dinheiro, e a branca, seguindo em frente, roçou na tabela lateral e, passando por trás da amarela, foi repicar na vermelha, desencostando-a da tabela do fundo.

– Puta que o pariu! – murmurou o baixinho.

– Bola ás ao fundo – disse o homem.

Encaçapou a vermelha, duas vezes a marrom, encaçapou a amarela, outras duas vezes a marrom, encaçapou a verde e logo a marrom mais duas vezes. Com uma puxeta levou a bola branca para o meio da mesa e ali, depois de um tiro seco na bola azul, preparava-se para jogá-la novamente quando Gorila praguejou. O homem ergueu-se, passou giz no taco, mas não disse nada. Deu outro tiro seco na bola azul, fazendo com que a branca retrocedesse e, dando na tabela, rodasse vagarosamente até a vizinhança da cor-de-rosa. Não era preciso jogá-la. Partida encerrada.

Gorila, que acompanhara as últimas manobras da bola branca sentado entre os amigos, encostou o taco na parede e ergueu-se.

– Tu não presta, cabeludo, teu lugar não é aqui. Aqui só tem gente honesta e tu é gatuno.

O outro fez que não ouviu e pegou o dinheiro na caçapa. Gorila se aproximava, com dois de seus parceiros.

– Ah, não vai levar.

Mais um passo e viu uma faca encostada em seu umbigo.

– Quieto – disse o homem. – Não quero te machucar.

– Ô Gorila, ele ganhou na lei do jogo – era o dono do bar.

O mulato respirava forte, olhando para a faca, os parceiros imóveis, atrás dele. Em meio ao inusitado silêncio do bar, ouviram-se pela primeira vez os ruídos da cozinha.

– Agora vou sair – disse o homem, calmamente. – Não quero furar ninguém, certo? Mas se tiver que furar, eu furo.

Recuou dois passos e, sem descuidar-se do mulato, encaminhou-se para a porta. Na calçada, guardou a faca sob o colete e olhou para trás. Não vinha ninguém e ele apurou o passo. Dobrou a esquina e, no meio da quadra, entrou numa lanchonete. O velho de tez azeitonada estava sentado ao balcão.

– Pai.

O velho voltou-se.

– E aí? Deu certo?

O homem meteu o maço de cédulas no bolso do velho.

– Hoje deu.

– Isso é o que vale. Vamos comer uma pizza.

– E aquele joelhaço?

– Tá doendo um pouco. Foda-se.

Sérgio Faraco

Livros “Contos Completos”, Porto Alegre, L&PM, 2004, e “Snooker: tudo sobre a sinuca”, L&PM, 2005.

Sergio Faraco nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 1940. Nos anos 1963-5 viveu na União Soviética, tendo cursado o Instituto Internacional de Ciências Sociais, em Moscou. Mais tarde, no Brasil, bacharelou-se em Direito.

Em 1968 publicou seus primeiros contos no Caderno de Sábado do Correio do Povo. Em 1988, seu livro A Dama do Bar Nevada obteve o Prêmio Galeão Coutinho, conferido pela União Brasileira de Escritores ao melhor volume de contos lançado no Brasil no ano anterior. Seguiram-se incontáveis obras, prêmios e distinções especiais, nacionais e internacionais. Conheça mais sobre o escritor e suas obras em seu site: Sergio Faraco.

Contatos: sergio.faraco@zerohora.com.br.

Correspondências: Caixa Postal 8544 – Tristeza – Porto Alegre – RS – CEP 91901-970.

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP