A Realidade Não é O Que Parece Carlo Rovelli

Embora possa assim ser considerado, penso que, nesta forma e finalidade, NÃO É TRANSGRESSÃO!

As reproduções de livros são proibidas, ainda que parciais! Mas, tenho a convicção de que, ao reproduzir a íntegra de um capítulo, 13° e último do livro “A realidade não é o que parece”, do físico Carlo Rovelli, estou divulgando a publicação e induzindo à sua leitura por interessados no tema, além de, por meio do importante conteúdo desse capítulo derradeiro, estar auxiliando na difusão das certezas e das importantes e expressivas dúvidas da ciência, por meio dos comentários do autor, que as descreve com cativante simplicidade, nas formas com que a ciência se comprova eficiente e confiável, como deve ser respeitada, observada, estudada, investigada, praticada, enfim, descrevendo as verdades que geralmente não percebemos em nosso cotidiano, repleto de paradigmas que sempre necessitam de reavaliações.

Eu poderia optar por escrever um resumo desse importante capítulo, mas, certamente não conseguiria reproduzir a profundidade do seu conteúdo, razão de o repassar na íntegra, conforme segue.

Capítulo 13° – “O mistério”

Página 254 do livro “A realidade não é o que parece” do físico Carlo Rovelli – Editora Objetiva, 2014, 290 páginas.

13. O mistério

A verdade está no profundo.
Demócrito.

   Descrevi como penso que é a natureza das coisas à luz do que aprendemos até aqui. Retomei rapidamente o avanço de algumas ideias-chave da física fundamental, ilustrei as grandes descobertas da física do século XX e descrevi a imagem do mundo que está aparecendo nas pesquisas orientadas pela gravidade quântica.

   Temos certeza de tudo isso? Não.

   Uma das primeiríssimas e mais belas páginas da história da ciência é a passagem do Fédon de Platão em que Sócrates explica o formato da Terra. Sócrates diz “considerar” que a Terra é uma esfera com grandes vales onde habitam os homens. Bastante correto, com um pouco de confusão. E acrescenta: “Não tenho certeza”. Esta página vale muito mais que as tolices sobre a imortalidade da alma que preenchem o restante do diálogo. Não apenas é o texto mais antigo que chegou até nós a falar explicitamente do fato de que a Terra poderia ser redonda, mas sobretudo brilha pela cristalina clareza com que Platão reconhece os limites do saber da sua época. “Não tenho certeza”, diz Sócrates.

   Essa aguda consciência da nossa ignorância é o cerne do pensamento científico. É graças a essa consciência dos limites do nosso saber que aprendemos tanto sobre o mundo. Hoje não temos certeza daquilo que suspeitamos, assim como Sócrates não tinha certeza da esfericidade da Terra, mas estamos explorando aquilo que se encontra nas fronteiras do nosso saber.

   A consciência dos limites do nosso conhecimento é também a consciência do fato de que aquilo que sabemos, ou acreditamos saber, pode depois se mostrar impreciso ou equivocado. Só tendo bem em mente que nossas crenças podem estar equivocadas é que podemos nos libertar delas e aprender mais. Para aprender algo a mais é preciso ter a coragem de aceitar que aquilo que pensamos saber, incluindo as nossas convicções mais arraigadas, pode ser equivocado, ingênuo demais ou um tanto tolo. Sombras projetadas na parede da caverna de Platão.

   A ciência nasce deste ato de humildade: não confiar cegamente nas próprias intuições. Não confiar naquilo que todos dizem. Não confiar no conhecimento acumulado pelos nossos pais e por nossos avós. Não aprendemos nada se pensamos que já sabemos o essencial, se pensamos que o essencial já está escrito em um livro ou guardado pelos anciãos da tribo. Os séculos em que os homens tiveram fé naquilo em que acreditavam são os séculos em que tudo ficou imóvel e ninguém aprendeu nada de novo. Se tivessem confiança cega no saber de seus pais, Einstein, Newton e Copérnico não teriam questionado tudo, não teriam promovido avanços no nosso saber. Se ninguém tivesse levantado dúvidas, ainda estaríamos ali adorando os faraós e pensando que a Terra está apoiada em uma grande tartaruga. Até o saber mais eficaz, como o construído por Newton, no final pode se revelar ingênuo, conforme mostrou Einstein.

   Algumas vezes a ciência é recriminada por pretender explicar tudo, saber a resposta para todas as perguntas. É curiosa essa recriminação para um cientista. A realidade é o contrário, como sabe qualquer pesquisador em qualquer laboratório do mundo: fazer ciência significa deparar-se cotidianamente com os próprios limites, com as inúmeras coisas que não se sabe e não se consegue fazer. Bem diferente da pretensão de explicar tudo! Não sabemos quais partículas veremos no próximo ano no CERN, o que observarão os nossos próximos telescópios, quais equações descrevem realmente o mundo; não sabemos resolver as equações que temos e algumas vezes nem sequer entender o que elas significam; não sabemos se a bela teoria na qual estamos trabalhando é correta, não sabemos o que existe além do big bang, não sabemos como funcionam um temporal, uma bactéria, um olho, as células do nosso corpo e o nosso próprio pensamento. Um cientista é alguém que vive na borda do saber, em estreito contato com os inumeráveis limites próprios e com os limites do conhecimento.

   Se não temos certeza de nada, como podemos confiar naquilo que a ciência nos conta? A resposta é simples: a ciência não é confiável porque nos dá respostas corretas. É confiável porque nos fornece as melhores respostas que temos no momento presente. As melhores respostas encontradas até agora. A ciência reflete o melhor que sabemos sobre os problemas que enfrenta. É precisamente a sua abertura para aprender, para colocar o saber em discussão, que nos garante que as respostas que oferece são as melhores disponíveis: se forem encontradas respostas melhores, essas novas respostas passam a ser a ciência. Quando Einstein, encontrando respostas melhores, mostrou que Newton estava errado, não questionou a capacidade da ciência de dar as melhores respostas possíveis: ao contrário, apenas confirmou essa capacidade.

   As respostas da ciência, portanto, não são confiáveis por serem definitivas. São confiáveis por serem as melhores disponíveis no momento. E são as melhores que temos precisamente por que não as consideramos definitivas, porque estamos sempre abertos para melhorá-las. É a consciência da nossa ignorância que dá à ciência sua extraordinária confiabilidade.

   E é de confiabilidade que precisamos, não de certezas. Porque não temos verdadeiras certezas e jamais as teremos, a não ser que aceitemos acreditar de olhos fechados em qualquer coisa. As respostas mais confiáveis são as respostas científicas, porque a ciência é a busca das respostas mais confiáveis, não das respostas certas.

   A aventura da ciência, apesar de ter suas raízes no saber precedente, tem sua alma na mudança. A história que contei é uma em que as raízes atravessam os milênios e que aproveitou cada pensamento sem nunca hesitar em se desfazer de alguma coisa quando outra que funcionava melhor era encontrada. A natureza do pensamento científico é crítica, rebelde, intolerante a toda concepção a priori, a toda reverência, a toda verdade intocável. A busca do conhecimento não se alimenta de certezas: alimenta-se de uma radical falta de certezas.

   Isso significa não dar crédito a quem se diz dono da verdade. Por isso ciência e religião estão geralmente em rota de colisão. Não porque a ciência pretenda ter as respostas definitivas, mas, exatamente ao contrário, porque o espírito científico sorri diante dos que afirmam ter respostas definitivas, ter acesso privilegiado à Verdade.

   Aceitar a incerteza substancial do nosso saber significa aceitar que vivemos imersos na ignorância, e, portanto, no mistério. Viver com perguntas para as quais não sabemos (talvez não saibamos ainda, ou talvez não saibamos nunca) dar resposta. Viver na incerteza é difícil. Alguns preferem uma certeza qualquer, mesmo que evidentemente infundada, à incerteza que vem de se dar conta dos próprios limites. Alguns preferem acreditar em uma história nem que seja apenas porque os anciãos da tribo acreditavam nela – não importa se é verdadeira ou falsa -, em vez de aceitar a coragem da sinceridade: aceitar que vivemos sem saber tudo o que gostaríamos.

   A ignorância pode dar medo. Por medo, podemos contar uns aos outros uma história que nos tranquilize, algo que acalme o nosso desassossego. Além das estrelas, há um jardim encantado, com um doce pai que nos acolherá entre seus braços. Não importa se é verdade; podemos resolver ter fé nessa história que nos tranquiliza, mas elimina nossa vontade de aprender.

   No mundo, há sempre alguém que tem a pretensão de nos dar as respostas definitivas. Aliás, o mundo está repleto de pessoas que afirmam conhecer a Verdade. Porque a aprenderam dos pais, porque a leram em um Grande Livro, porque a receberam diretamente de um deus. Porque a encontram no fundo de si mesmos. Há sempre alguém, ou alguma instituição, que se autodenomina depositário da Verdade e se apressa em oferecer a todos respostas consoladoras para as perguntas inquietantes. “Não tenham medo, lá no alto há alguém que ama vocês.” Há sempre alguém que tem a pretensão de ser depositário da Verdade, fechando os olhos para o fato de que o mundo está repleto de outros depositários da Verdade, cada qual com a sua própria, diferente da dos outros. Há sempre algum senhor vestido de branco que diz: “Ouçam o que eu digo, eu sou infalível”.

   Não critico quem prefere acreditar em fábulas: cada um de nós é livre para acreditar naquilo que quiser e de fazer o que quiser com a própria inteligência. Quem tem medo de fazer perguntas pode seguir Agostinho, que, um pouco por brincadeira, conta a resposta que ouviu à pergunta sobre o que Deus fazia antes de criar o mundo: “Alta… scrutantibus gehennas parabat”, “Preparava o inferno para aqueles que tentam perscrutar os mistérios profundos”. Aquele mesmo “profundo” em que Demócrito, na citação que abre este capítulo, nos diz para ir buscar a verdade.

   De minha parte, prefiro encarar nossa ignorância, aceitá-la e procurar olhar além dela, tentar compreender aquilo que conseguimos. Não apenas porque aceitar essa ignorância é o melhor caminho para não cair na armadilha das superstições e dos preconceitos, mas em primeiro lugar porque aceitar a nossa ignorância me parece o caminho mais verdadeiro, mais bonito e, sobretudo, mais honesto.

   Tentar olhar mais longe, ir mais longe, me parece uma daquelas coisas esplêndidas que dão sentido à vida. Como amar e como olhar o céu. A curiosidade de aprender, descobrir, querer olhar além da colina, querer experimentar a maçã é o que nos torna humanos. Como lembra a seus companheiros o Ulisses de Dante, não somos feitos “[…] para viver como brutos, mas para seguir virtude e conhecimento”.

   O mundo é mais extraordinário e profundo que qualquer fábula que os pais nos contam. Queremos sair para vê-lo. Aceitar a incerteza não nos tira o sentido do mistério, ao contrário. Estamos imersos no mistério e na beleza do mundo. O mundo revelado pela gravidade quântica é um mundo novo, estranho, ainda repleto de mistério, mas coerente na sua simples e límpida beleza.

   É um mundo que não existe no espaço e não se desenvolve no tempo. Um mundo feito apenas de campos quânticos em interação, cujo pulular de quanta gera, através de uma densa rede de interações recíprocas, espaço, tempo, partículas, ondas e luz (figura 13.1).

Figura 13.1 – Uma representação intuitiva da gravidade quântica.

E continua
continua a pulular morte e vida
terna e hostil, clara e incognoscível.

E, acrescenta o poeta,
Eis o que captam os olhos do alto desta torre de vigia.

   Um mundo sem infinitos, onde não existe o infinitamente pequeno porque há uma escala mínima para esse pulular, abaixo da qual não existe nada. Quanta de espaço se confundem na espuma do espaço-tempo, e a estrutura das coisas nasce da informação recíproca que tecem as correlações entre as regiões do mundo. Um mundo que sabemos descrever com um conjunto de equações. Que talvez precisem ser corrigidas.

   É um vasto mundo ainda todo a desvendar, a explorar. Meu sonho mais bonito é que alguém, entre os mais jovens leitores deste livro, possa sair para navegá-lo, iluminá-lo, descobri-lo. Além da colina, há outros mundos ainda mais
v a s t o s,  a i n d a  i n e x p l o r a d o s.

   Transcrição realizada por;
Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP
03.11.2021

O Livro “A Realidade Não é o
Que Parece” – do físico Carlo Rovelli