A farra continua

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A farra continua

Segue a reprodução integral de editorial do Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, em publicação do dia 13.11.2016 – Equipe Online: online@jcruzeiro.com.br – (São meus os destaque em negritos).

Em meio a uma das crises mais profundas da história recente do Brasil, o governo do presidente Michel Temer (PMDB) já encaminha “remédios amargos” na tentativa de reverter a situação que castiga os brasileiros com desemprego, saúde e educação precárias, falta de horizontes, entre outras dificuldades gigantescas.

Nesse cenário, na contramão do sacrifício imposto à população, a leitura rotineira de jornais, revistas e sites de notícias nos últimos dias estampa informações sobre a classe política que despertam sentimentos de revolta, indignação, perplexidade. A mesma classe política que já costura em Brasília pacotes com medidas para limitar os gastos públicos, como se tal limitação não significasse o equivalente ao congelamento do caos, não dá o exemplo da austeridade usada como justificativa para apertar os cintos dos cidadãos.

Por exemplo, o Senado celebrou contrato de R$ 283 mil com a empresa JDC Engenharia para a execução de reforma no gabinete do senador Romero Jucá (PMDB-RR). O extrato do contrato está publicado no Diário Oficial da União da última segunda-feira. Jucá foi escolhido por Temer para substituir a senadora Rose de Freitas (PMDB-ES) na vaga de líder do governo no Congresso.

Também na mesma segunda-feira, no Palácio do Planalto, em meio à crise econômica e ao esforço para aprovar no Congresso um teto para limitar os gastos públicos, o governo Michel Temer desembolsou, sem licitação, mais de R$ 500 mil para promover um show para convidados em homenagem ao centenário do samba. Naquele dia, o Diário Oficial publicou duas dispensas de licitação para contratação de artistas que se apresentaram na cerimônia da Ordem do Mérito Cultural, na qual foram premiadas 36 personalidades do samba.

De quebra, na semana marcada pelo feriado de Finados, um grupo de seis deputados federais viajou para uma visita às instalações de esporte de alto rendimento na Nova Zelândia. O roteiro incluiu passagem por Sydney e Camberra, na Austrália, para contatos com organizações esportivas. Qual o sentido desses contatos após as Olimpíadas do Rio? Já o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), viajou ao Azerbaijão para reuniões com autoridades do setor petrolífero.

Aliás, a semana de Finados foi simbólica como retrato do Brasil. Com a data encravada numa quarta-feira, os deputados e senadores não tiveram dúvida: enforcaram as sessões ordinárias na semana que tradicionalmente eles fazem durar de terça a quinta-feira.

Enquanto isso, o Ministério da Defesa lançou na semana passada licitação para eventual gasto de quase R$ 500 mil com brindes para o Comando da 8ª Brigada de Infantaria Motorizada. Entre vários itens, prevê-se dedicar R$ 39 mil só para kits de churrasco — cinco espetos e um garfão, tudo em aço inox, com cabo de osso caneta de avestruz, em estojo de lona verde-oliva, bordado com logo do Exército. O plano também é gastar R$ 10 mil na aquisição de kits de vinho canivete saca-rolhas, um anel salva gotas, uma tampa e um termômetro para vinho, acompanhado de maleta em madeira com berço em espuma.

Todas essas notícias deixam o cidadão atordoado. Ele se habituou a ser informado que a PEC 241 vai congelar o limite de gastos do setor público por 20 anos como medida para conter a crise. E vê todos os dias notícias sobre os planos de intervenções na Previdência Social como forma de evitar a quebra dessa instituição e garantir os direitos dos aposentados. Ao constatar, porém, que os políticos não dão o exemplo de contenção de despesas, o cidadão se sente enganado.

Infelizmente, o que fica claro é que a sociedade brasileira é composta de dois andares. No andar de cima, a farra continua, como se não existisse nenhuma crise, como se os que fazem parte desse nível social se sentissem no direito de se comportar como quem vive numa ilha de riqueza e prosperidade. E no andar de baixo, sentindo-se ultrajado, o cidadão é quem paga a conta do sacrifício na forma de vida mais difícil, sonhos cada vez mais distantes e esperança perdida.

No fim das contas, os ocupantes do andar de cima adotam comportamentos que ferem os princípios de democracia, os valores de justiça, as promessas de honrar os votos dos eleitores. Essa postura, comparada aos sofrimentos do andar de baixo, tem a dimensão de escândalo num país já devastado pela imoralidade.

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP