A Educação Enjeitada

Reprodução integral de reportagem da Revista Veja de 16 de dezembro de 2015 – Coluna de Cláudio de Moura Castro.

claudiodemouacastro02As escolas acadêmicas têm uma cultura organizacional hostil a áreas técnicas. Alunos e professores de classe média desdenham essas carreiras

Entra ano, sai ano, nossa educação técnica permanece atrofiada. Como não temos estudos equivalentes. vale notar que nos Estados Unidos apenas 20% da força de trabalho necessita de bacharelado de quatro anos. Em contraste, é muito maior a proporção dos que necessitam de algum tipo de formação técnica ou profissional. Lá, essa formação é predominantemente oferecida nos Community Colleges, cujos formandos são mais numerosos do que os bacharéis de quatro anos.

Na Europa, pode chegar a 70% da coorte a proporção de jovens na idade do ensino médio que cursam formações técnico-profissionais. No Brasil, dos que se formam no médio, somente cerca de 10% cursaram escolas técnicas.

Por que estaríamos tão fora dos padrões internacionais? Há várias causas, mas uma parece predominar. Sendo o ensino técnico uma combinação de ensino médio com um complemento profissionalizante, pela nossa legislação, somam-se as 1000 horas de carga horária do técnico à duração regular do médio. Somos diferentes de todos os países conhecidos, em que as disciplinas do técnico substituem outras disciplinas do ciclo acadêmico. Ou seja, obtêm-se os diplomas técnicos com a mesma carga horária do médio regular.

Têm pouca motivação para cursar um técnico os brasileiros mais modestos e mais pressionados para entrar no mercado de trabalho. Além da duração excessiva, o currículo do ensino médio é chato, distante e já hipertrofiado. Resta a alternativa de fazer um ano adicional de estudos. É absurdo que um aluno, para entrar no ITA, precise estudar 1 000 horas a menos do que para se formar em técnico de administração.

Neste momento em que se reformula o ensino médio, não devemos perder a oportunidade de corrigir esse equívoco vergonhoso. Como se busca limitar os conteúdos da nova base curricular, com o objetivo de possibilitar uma diversificação nesse nível, a maneira mais prática de resolver o problema do técnico é considerá-lo como mais uma modalidade de diversificação.

Se assim for feito, quem optar por um curso técnico poderá cursá-lo como se fora uma das opções da diversificação – que a nova legislação tenta viabilizar. Por exemplo, em vez de ciências biológicas ou humanidades, pode fazer um currículo técnico de eletrônica.

Especialização prematura! Adestramento! Onde está a formação humanista? A essas críticas bobocas, cabem duas respostas. A primeira: o currículo técnico equivale a apenas um ano de estudos, em uma escolaridade de doze. A segunda: assim se faz nos países de melhor educação e com democracia mais consolidada. Esperamos que a nova lei estimule a adoção de currículos experimentais, considerando a rápida evolução e segmentação das ocupações técnicas. Em certas áreas, em um par de anos, o currículo se torna defasado.

Na prática, as escolas acadêmicas têm uma cultura organizacional hostil a certas áreas técnicas, sobretudo as manufaturas. Alunos e professores de classe média desdenham ou discriminam essas carreiras. Nesses casos, é mais apropriado e eficiente que as horas do técnico sejam oferecidas em outras instituições mais afinadas com o trabalho industrial. Mas essas são opções que devem permanecer abertas. O espírito da lei deve ser liberdade e flexibilidade valores que andam na contramão da nossa cultura.

Nem sempre se justifica uma formação profissional de 1000 horas ou até mais. Há inúmeros casos de cursos que podem ser muito mais curtos. Pela lei, não podem justificar o

diploma de técnico, mas estão em linha com o que o mercado de trabalho valoriza. Portanto, na parte diversificada do currículo do ensino médio, deverá ser possível incluir programas mais curtos, sobre quaisquer assuntos que possam enriquecer o perfil profissional dos graduados. A título de exemplo, o Senai e o Senac oferecem centenas de cursos profissionalizantes, de duração variada. Entre muitas outras, são possibilidades interessantes para alunos do médio.

No fundo, o técnico é vítima do mito da “Universidade para todos” e do preconceito atávico de nossa sociedade contra aquelas ocupações em que se usam as mãos. Precisamos parar de vender sonhos irrealistas e ao arrepio do mercado de trabalho. Nesses assuntos, tudo sai torto, porque a sociedade vê torto.

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP

Educação Riqueza na Ponta do Lápis

Reprodução integral de reportagem da Revista Veja de 16 de dezembro de 2015 – Matéria de Mônica Weinberg – De Doha (Os trechos com destaques em negrito são nossos).

EricHanushek03Causa e Efeito – O mestre Hanushek – Pioneiro em demonstrar com cálculos precisos quanto o ensino de qualidade gera riqueza para um país.

RIQUEZA NA PONTA DO LÁPIS

Doutor em economia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), o americano Eric Hanushek, 72 anos, tem uma visão peculiar da educação, à qual vem se dedicando há mais de três décadas. Enquanto a ideologia ainda impera no debate, ele trabalha para estabelecer relações entre o que ocorre na sala de aula e o vigor das economias. Nesse campo, é considerado o mestre. Seu modo direto de argumentar costuma suscitar antipatias. “Sei que sou odiado“, diz o hoje professor da Universidade Stanford. Convidado do Wise, congresso que reuniu os maiores especialistas da área, Hanushek falou a VEJA em Doha, capital do Catar.

O BÊ-Á-BÁ DO PIS

EricHanushek01Virou lugar-comum dizer que a educação está na base da riqueza. O espetacular é saber quanto ela é definitiva para o resultado de uma economia. Fiz um estudo para os últimos cinquenta anos em quase oitenta países e observei uma coerência impressionante: a boa formação escolar de uma população explica em torno de 75% do PIB. E olhe que estamos tratando apenas de conhecimento básico mesmo, assimilado nos anos escolares – matemática, linguagem, ciências e a capacidade de juntar as peças e solucionar problemas simples. É a partir do domínio do mais rudimentar que se vai chegando às áreas do pensamento de maior complexidade e valor, à criatividade e à inovação.

O PODER DAS INSTITUIÇÕES

Tirando a educação, o PIB se eleva pela qualidade das instituições que um país reúne e pelo grau de abertura da economia. O casamento mais poderoso em prol da produtividade e da riqueza se dá justamente entre bom ensino e instituições de alto padrão. A Coreia do Sul é um caso emblemático: as escolas ali estão entre as melhores do mundo, e as leis que regem a economia favorecem o talento ao extremo. Existem também aquelas nações de educação mediana, mas que contam com um motor institucional tão potente que acabam compensando o lado do ensino. Nesse grupo incluo os Estados Unidos. Infelizmente, o Brasil ainda pertence ao rol de países em que tanto a sala de aula quanto as instituições demandam avanços. E por isso o PIB brasileiro patina.

SÓ A QUALIDADE CONTA

Embora com atraso em relação às metas estabelecidas pelas Nações Unidas, houve progresso notável no mundo inteiro em relação à inclusão de crianças na escola. Em países com renda média, cerca de 80% dos alunos já encerram o ensino fundamental. Mas isso não significa que estejam aprendendo para valer. Muitas vezes não estão e, sem aprender, todo o esforço terá sido em vão. A quantidade de matrículas, pura e simplesmente, não leva a crescimento algum. Está lá no Pisa, o mais importante exame para comparar a educação entre países: é a qualidade que alavanca a economia, e não a quantidade.

O PESO DE UM BOM MESTRE

Um professor pode mudar de forma decisiva a trajetória de um aluno. Um de meus cálculos mostra que, se um estudante é exposto às aulas de um profissional de alto gabarito, egresso da turma dos 25% melhores mestres, ele tende a ganhar 16000 dólares a mais por ano do que outros que frequentam a classe de professores medianos ou ruins. Bons profissionais da sala de aula são imprescindíveis para começar a pensar em elevar a capacidade produtiva de um país. Sem eles, esqueça todo o resto.

PROVA, PROVA, PROVA

Professores precisam ter seu desempenho em sala avaliado, mas a maioria teme e resiste à ideia. Argumentam que assim perdem a liberdade de ensinar. Repare que, em geral, o pessoal do contra é o que não vai bem no ofício e, por razões óbvias, se recusa a ver as próprias fragilidades expostas. É a opinião desses que costuma prevalecer. Eles impedem algo que é muito comum em tantas outras áreas e ambientes de trabalho: um retorno sobre o desempenho e um prêmio diante dos resultados. Não por acaso os mestres mais esforçados e talentosos agem de forma contrária. Aceitam passar pelo escrutínio, procuram saber em que vão bem ou mal e desejam avançar, sempre. É um padrão mundial.

O TABULEIRO GLOBAL

Há países muito mais instruídos do que outros, comparação mais do que necessária nos dias de hoje. Se olharmos para estudantes do 9º ano do Peru e de Singapura, por exemplo, veremos que a diferença de aprendizado entre eles equivale a cerca de quatro anos escolares. O que isso significa? Que, no final do ensino fundamental, é como se os peruanos estivessem na 5ª série e os alunos de Singapura, na 9ª. Não precisa nem dizer quem tem mais chance de competir globalmente e construir o maior PIB.

NADA DE MODA

A educação é um terreno fértil a modismos e achismos. Agora, tem-se falado muito da importância das habilidades socioemocionais, como persistência, criatividade, capacidade de trabalhar em equipe, mas a verdade é que ninguém sabe ainda como e em que medida elas podem ser desenvolvidas na escola. Falta estudar essa questão, assim como tantas outras, sem deixar que simpatias e ideologias se sobreponham aos fatos. Não adianta ir ao sabor da moda nem dos interesses políticos. Só o investimento contínuo em políticas educacionais sensatas levará ao pote de ouro.

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP