O carinho do mestre

Reprodução integral de editorial publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, na edição de 18.10.2015.

O carinho do mestre

jornalcruzeirosulsiteO filme Ao mestre com carinho, de 1967, é um clássico do cinema. Estrelado pelo ator Sidney Poitier, que interpreta um professor, a história emociona gerações em todo o mundo. A identificação é imediata. Professor é atividade nobre e universal. Por isso este filme é uma recordação especial na semana em que se comemorou o Dia do Professor, em 15 de outubro.

O filme também lembra que o professor é protagonista de exemplos de coragem e desprendimento para buscar superação em situações extremas e ser o agente de transformação humana. Esse perfil pode ser encontrado em Sorocaba, em milhares de outras cidades brasileiras e em qualquer outro lugar do mundo.

Certo dia, em Sorocaba, uma professora chorou de felicidade depois de conseguir alfabetizar uma criança que tinha dificuldade para a aprendizagem. Há quem diga que ela fez a sua obrigação profissional. Mas também há quem reconheça nesse processo um modelo de dedicação e amor ao próximo. As lágrimas davam a medida da satisfação da professora. Sem perceber, muitos anos após o lançamento do filme Ao mestre com carinho, ela incorporava o personagem de Sidney Poitier e demonstrava a capacidade transformadora do educador na vida dos alunos.

O problema é que, muitas vezes, o professor e sua importância maiúscula para a formação da sociedade não são conceitos valorizados pelos planos educacionais criados pelos governos municipais, estaduais e federal. Da educação infantil ao ensino superior, os reflexos desse descompasso podem ser medidos pelos frequentes protestos dos professores por reajustes de salários e condições de trabalho.

Neste ano, os professores da rede estadual de ensino de São Paulo fizeram uma greve de 92 dias, a maior registrada pela Apeoesp, o sindicato da categoria. Na semana passada, professores de universidades e institutos federais encerraram uma greve que durou cinco meses. Nos municípios, são frequentes as dificuldades com salas de aulas superlotadas, falta de materiais pedagógicos e situações dramáticas provocadas por invasões de escolas e outros estragos ligados à falta de segurança.

A política educacional abrange um amplo conjunto de requisitos, que começa pelo respeito ao professor. Nenhuma política pública para a educação, por mais elaborada que seja, pode garantir resultados concretos se não valorizar o professor na proporção da sua importância.

E não valem discursos vazios, promessas enganosas. Discurso sem o correspondente efeito prático leva ao desgaste e à perda da credibilidade de políticos e administradores públicos que prometem e não cumprem o que falam.

Há algo muito errado num país em que professor precisa fazer greve para lutar por valorização ou é submetido a condições de trabalho inadequadas. Os responsáveis pelas políticas educacionais deveriam refletir sobre os ensinamentos do educador Paulo Freire, que determinou: “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”

Este conceito repercute com o tom de alerta. Num exercício de possibilidades, quem sabe os governos brasileiros pudessem ser eficientes nos planos de educação se se inspirassem, por exemplo, na seriedade da professora que chorou emocionada ao constatar que seu aluno com dificuldades começava a ler as primeiras palavras. E seria uma inspiração estimulante, que poderia melhorar a situação do ensino. O outro problema é que a prática política não é pautada pela mesma frequência da arte de ensinar.

A arte de alfabetizar e educar os estudantes para a vida requer, acima de tudo, vocação para o ensino. Ser professor é atividade habitualmente comparada a uma missão e há razão de ser nisso. Ensinar é dar de si, num processo que vai muito além da transferência de conhecimento. E nem todo cidadão consegue realizar essa tarefa, por mais bem-intencionado que seja.

Paulo Freire também descreveu: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” A transposição deste conceito para a realidade pede mais do que boa vontade dos políticos e administradores públicos. Pede que eles aprendam a lição de que ensino é coisa séria e que nenhum país, entre os mais ricos do mundo, atingiu o desenvolvimento sem uma educação de excelência e que reconhece no professor o protagonista dos seus modelos para o setor. Somente no dia em que o Brasil atingir esse estágio poderemos celebrar o Dia do Professor com a possibilidade de retribuir o carinho que marca a sua vocação para formar cidadãos.

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP

Professora se fantasia para ensinar anatomia

O texto que segue está disponível no site “Queminova Catracalivre”. Foi aqui reproduzido integralmente por exibir iniciativa, criatividade e coragem de professora na condução do ensino escolar renovador.

Professora se fantasia para ensinar anatomia em colégio

professoraanatomiaA professora holandesa Debby Heerkens inovou nas aulas de biologia da escola Groene Hart Rijnwoude, na cidade de Hazerswoude, na Holanda. Para entreter os alunos a professora explica complexos assuntos da matéria com o próprio corpo, com a ajuda de uma fantasia temática e ilustrativa em 3D, com músculos, órgãos do corpo humano e da anatomia em geral.

De acordo com informações de um jornal holandês, a ideia para as aulas temáticas surgiu após Debby avistar uma pessoa caminhando nas ruas com uma legging estampada com músculos em 3D. Depois de comprar as fantasias em um site na internet, ela inovou na sala de aula.

professoraanatomia2Depois das aulas memoráveis, os alunos perguntam a Debby quando será a próxima aula temática.

 

 

 

 

Assista ao vídeo:

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP

 

Aula de Brincadeira

O texto que segue está reproduzido por exibir criatividade na condução do ensino escolar renovador, produtivo e com resultados superiores aos que vem sendo conseguidos com o nosso desatualizado sistema de ensino, que “embota” os alunos, e que os gestores da nossa educação ainda insistem em manter.

É a transcrição integral de matéria publicada pela Revista Veja São Paulo, datada de 14.10.2015, em reportagem de Aretha Yarak.

aulasbrincadeiras01Atividade na quadra do Objetivo de Pinheiros: conceitos de história e ciências (Foto: Fernando Moraes).

Escolas da capital misturam brincadeiras às lições teóricas.

Sem recorrer à tecnologia, escolas introduzem jogos e outras inovações para consolidar os conceitos aplicados em classe.

Atividades corriqueiras nas aulas de geografia do ensino fundamental II, a leitura e a interpretação de mapas costumam ser um pesadelo para os estudantes. Paralelos, meridianos e graus são conceitos que flertam com a matemática e provocam pânico em mentes pré-adolescentes. “Eu ficava angustiada por perceber que eles simplesmente não conseguiam compreender a lição”, diz a professora Mônica Leopoldino Silva Fernandes, responsável pela disciplina no Colégio Mary Ward, no Tatuapé.

Para mudar esse cenário, ela resolveu pôr seus alunos para brincar e desenvolveu um jogo de tabuleiro com o mapa-múndi. O objetivo é seguir a orientação de cartas — com informações como coordenadas e fusos horários — e encontrar determinados pontos no desenho. O resultado foi notável: uma turma com desempenho apenas mediano na matéria passou a ter resultados bem melhores dentro de pouco tempo. “Transferir o que era abstrato para um universo concreto fez toda a diferença”, afirma Mônica.

Animadas pela novidade, as crianças comemoraram. “Fica mais difícil esquecer quando a lição é desse jeito”, conta Maria Eduarda Pereira Scetta, de 12 anos. A estratégia de introduzir inovações pedagógicas em classe é cada vez mais comum em escolas da capital. “Exercitar o conteúdo aplicado melhora o aprendizado porque transforma o conceito em experiência”, diz a presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Luciana Barros de Almeida.

Mas, para captar a atenção dos jovens, nem sempre é preciso recorrer à fórmula fácil de voltar-se para a tecnologia. O objetivo pode ser atingido até mesmo em uma prosaica brincadeira na aula de educação física. Toda quarta-feira, a turma do 6 ano da unidade de Pinheiros do Colégio Objetivo forma os times e entra em quadra. Mas, em vez de disputar as banais partidas de vôlei ou futebol, cada jogador assume a função de um personagem dentro de um tema específico estipulado pelos orientadores. Pode ser a Idade Média (para colaborar com o ensino de história), o sistema solar (para ajudar em ciências) ou qualquer outro assunto.

Em uma proposta recente, por exemplo, os alunos representaram servos, reis e arqueiros. O objetivo era derrubar, com uma bola, todos os habitantes do “castelo inimigo”. Algo semelhante a um jogo de queimada. “Enquanto praticamos a atividade, estamos reforçando o que aprendemos nas outras matérias”, explica Leandro Marsaioli Domingues de Castro, de 10 anos.

Há também ganhos na própria disciplina de educação física. “Por meio dessa fantasia, consigo ampliar a participação da turma para além daquele grupinho com habilidade e aptidão natural para o esporte”, comenta o professor Giorgio Falco.

A redação de cartas escritas a mão foi a ferramenta adotada pelo Colégio Humboldt, em Interlagos, para ensinar português. Desde o primeiro semestre, os matriculados no 7 ano trocam correspondência com estudantes de países que também adotam nosso idioma. A primeira remessa de textos chegou de Portugal em abril. Com eles em mãos, a moçada identificou diferenças linguísticas, estudou construções verbais e analisou o papel do mais recente acordo ortográfico.

A resposta brasileira foi enviada em setembro. “Tivemos de pesquisar para poder entender as mensagens e escrever de volta”, conta Nicole Kozlowski, de 12 anos. O próximo passo do projeto será implantar o mesmo tipo de “intercâmbio” com Moçambique e Macau. “Minha meta é que todos os alunos dessa faixa etária passem pela experiência”, explica a professora Carolina Yokota.

Até as temidas aulas de matemática estão passando por uma “recauchutada” para que se tornem menos duras. No colégio Pio XII, no Morumbi, os estudantes de 6 e 7 anos podem levar suas canções favoritas para que sejam reproduzidas na sala. A caixa de som portátil é ligada durante a resolução de exercícios, mas fica proibida durante as explicações e correções. “Há estudos que apontam que a música aumenta a concentração”, conta o professor Marco Malzone, reconhecendo a melhora de rendimento em sua classe. Entre os artistas mais ouvidos estão os ídolos adolescentes Justin Bieber, One Direction e Katy Perry.

Há novidades também para alunos menores. Nas três unidades do Colégio Visconde de Porto Seguro, integrantes do 2 ao 5 ano passaram a realizar experimentos científicos, o que é incomum nessa faixa etária. As atividades englobam temas como saúde, meio ambiente e eletricidade.

Um exemplo de tarefa consiste em deixar a criança construir um filtro de água para que descubra sozinha se o melhor funcionamento está relacionado com pedras pequenas ou grandes ou, ainda, com areia. “Ela aprende a levantar hipóteses e fórmulas antes de o professor ensiná-la”, afirma a vice-diretora pedagógica, Carla Dauch.

aulasbrincadeiras02A professora Carolina Yokota, com alunos do Colégio Humboldt: troca de cartas com Portugal (Foto: Mario Rodrigues).

 

 

aulasbrincadeiras03A professora Mônica Fernandes e a pupila Maria Eduarda: jogo de tabuleiro para aprender fuso horário (Foto: Fernando Moraes).

 

 

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP

Educação O Bedel Eletrônico

Reprodução integral do editorial publicado pelo Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, de 07.10.15.

* Os destaques em negritos são nossos

Em um País onde a educação sempre acaba ficando em segundo plano e a escola pública assiste a um triste declínio de qualidade, apesar dos esforços de alguns setores do governo, chama a atenção a notícia de que o programa “Quem falta faz falta”, desenvolvido pela Secretaria de Estado da Educação, tem obtido bons resultados em Sorocaba. O assunto foi tema de reportagem deste jornal (Evasão escolar – Programa notifica 400 alunos faltosos, 3/9, pág. A8). De acordo com depoimento do dirigente regional de Ensino de Sorocaba, Marco Aurélio Bugni, a secretaria notificou pelo menos 400 pais ou responsáveis por alunos que deixaram de ir à escola desde o mês de agosto. Desse total, pelo menos a metade voltou a frequentar a escola depois que seus pais receberam ligação da central telefônica da Secretaria da Educação, uma espécie de bedel (antigo responsável pela disciplina nas escolas) à distância.

A legislação do Estado de São Paulo determina que serão comunicados todos os pais de alunos que atingirem 10% de faltas em determinado período. Anteriormente, os responsáveis pelos estudantes eram avisados quando eles se ausentavam em 20% das aulas. A regional de Ensino de Sorocaba é uma das três escolhidas para desenvolver o projeto-piloto.

Em Sorocaba, a evasão escolar, que é relativamente baixa nos dois ciclos do ensino fundamental (1% e 3%, respectivamente) se acentua no ensino médio, quando atinge 7%. Há duas explicações para essa debandada dos bancos escolares. Essa é a fase em que os alunos mais carentes começam a trabalhar e muitas vezes não conseguem conciliar trabalho com estudos. Há também a questão da desinformação, pois até 2013, os estudos eram obrigatórios dos 6 aos 14 anos, quando normalmente o ensino fundamental seria concluído. Hoje, é obrigatória a educação dos 4 aos 17 anos, com a conclusão do ensino médio, mas boa parte da população desconhece essa obrigatoriedade.

Há um consenso entre os estudiosos do assunto de que um país se desenvolve com mais velocidade se investir maciçamente em educação/conhecimento e infraestrutura. Não são os únicos fatores que propiciam um rápido crescimento, mas são fundamentais, oferecendo a base física e população preparada para um progresso duradouro. O processo desenvolvido pela Coreia do Sul se tornou um exemplo clássico em que os investimentos na área educacional resultam no progresso geral da nação. Em 1960, a Coreia do Sul apresentava índices sociais e econômicos comparáveis aos países mais pobres da Ásia. Logo após a Guerra da Coreia (1950-1953) que dividiu o país ao meio, o PIB per capita era de US$ 883, mais baixo que o de Moçambique, por exemplo. Em 2004, após o esforço concentrado em educação, o PIB chegou a US$ 1 trilhão e hoje é a 15ª economia do mundo, apesar de seu pequeno território. A Coreia do Sul exporta automóveis, produtos eletrônicos sofisticados e tecnologia de ponta para todo o mundo.

O país asiático atingiu esse padrão de qualidade e acesso à educação graças a investimentos maciços, principalmente na formação de professores, melhoria da estrutura e funcionamento das escolas e investimentos em material de apoio. Não se pode esquecer também que outro fator importante é a tradição oriental de disciplina e valorização da educação. As aulas na Coreia do Sul para o equivalente ao novo ensino fundamental começam às 7h30 e terminam às 17h. Após esse horário, muitos vão para uma escola privada onde têm aulas à noite.

O Brasil tem bons projetos na área da educação. Um deles é o Plano Nacional de Educação (PNE), sancionado pela presidente Dilma Rousseff em junho do ano passado. O plano estabelece 20 metas a serem cumpridas até 2024 e abrange desde a educação infantil aos cursos de pós-graduação. Uma das metas, talvez a mais importante, é a que estabelece o investimento de 10% do PIB na educação até o fim da vigência do PNE. O problema é que no Brasil, projetos como esse demoram a decolar, se arrastam pela burocracia e falta de cumprimento das metas em vários níveis. Entre as primeiras metas do PNE está a aprovação da Lei de Responsabilidade Educacional, elaborada para assegurar um padrão de qualidade para a educação básica. Essa lei, entretanto, sequer foi aprovada. Ela deveria estar em vigência desde junho passado.

Paulo Dirceu Dias
paulodias@pdias.com.br
Sorocaba – SP